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  Título
O uso de imagens de arquivo na ficção histórica contemporânea
Autor
Fabio Luciano Francener Pinheiro
Resumo Expandido
Desde suas origens, o cinema sempre se serviu da história, mas é a partir da década de 1970 é que os historiadores passaram a considerar os filmes com a mesma seriedade de outras fontes. Como alertava Marc Ferro, o filme “(...) documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História” (1992, p. 86). Imagens capturadas do mundo histórico ou encenadas vêm sendo analisadas e interpretadas em conceitos que envolvem, por exemplo, as ideias de monumentalidade (Le Goff: 1990) e alegoria histórica (Ismail Xavier: 2005). No cinema de entretenimento fica evidente a opção pela encenação de situações ficcionais a partir de um roteiro. Uniformizadas esteticamente, as imagens do filme asseguram a fluidez da narrativa. Assim, os filmes imaginados, “posados” acabaram prevalecendo sobre os que absorvem a intensidade do mundo histórico e social. Esta oposição, criada sobre Lumière e Méliès, manteve-se até que a pesquisa reposicionou seu entendimento. Batalhas históricas eram recriadas em banheiras de estúdios; filmes de ficção utilizavam tomadas das ruas. Cineastas como Andrea Tonacci (Serras da Desordem, 2006) e Eduardo Coutinho (Jogo de Cena, 2007) conseguem embaralhar estes territórios da encenação e do registro.

Cineastas e filmes incorporam imagens de arquivo seguindo orientações distintas. Glauber Rocha usou trechos de seu próprio documentário Maranhão 66 em Terra em Transe (1967); Oliver Stone discutiu o famoso Zapruder Film em JFK (1991); Clint Eastwood recriou a produção de uma fotografia em A Conquista da Honra (The Flags of our fathers, 2006); Orson Welles encenou imagens dos funerais de Kane para soarem como cinejornal, em Cidadão Kane (Kane, 1942); Forrest Gump (Robert Zemeckis, 1994) subordina imagens da História ao enredo vivido por seu protagonista.

Todo filme se funda em princípios de organização. Na ficção, valoriza-se a mise-en-scene; no documentário a articulação de tomadas do mundo real. Não é muito comum que o cinema ficcional trabalhe com imagens de arquivo. Texturas, cores, enquadramentos, ritmos, sonoridades e irregularidades do real destoam do universo ficcional. Imagens nascidas em um contexto histórico são retrabalhadas em outro, revelando uma tensão inerente ao material extraído do mundo. A proposta é refletir sobre a ontologia destas imagens e sua utilização em outra forma de organização e seleção de imagens; esclarecer como se dá esta incorporação, sua lógica, critérios narrativos e estéticos; posicionar a imagem de arquivo no interior do filme histórico, apontando como registro e encenação interagem na construção de uma visão histórica. Estudaremos três filmes recentes, que lidam com imagens de arquivo seguindo diferentes estratégias: a cinebiografia brasileira Gonzaga – de Pai para Filho (Bruno Silveira, 2012); a produção britânica A Dama de Ferro (The Iron Lady, Philipa Lyoid, 2011) e o filme italiano Vincere (Marco Bellocchio, 2009).

Gonzaga cobre a juventude do músico ao seu ostracismo e sua reaparição no começo dos anos 1980. Mobiliza materiais como o áudio original das entrevistas feitas por Gonzaguinha com o pai, capas de discos, revistas, jornais, fotografias e imagens de apresentações. A encenação dos shows com atores é harmonizada com as imagens de arquivo das platéias por recursos de edição. A Dama de Ferro mostra a trajetória política de Margaret Tatcher, destacando os anos como primeira ministra, de 1979 a 1990. Decisões impopulares como privatizações e desregulamentações têm suas reações incorporadas ao filme com imagens de telejornais, que mostram protestos nas ruas de Londres, além do conflito com a Argentina pelas Malvinas. Vincere, o drama vivido por Ida Dalser, que tenta provar a legitimidade de um romance com Benito Mussolini, é mais ousado na incorporação de imagens de arquivo. Personagens-atores interagem com imagens de cinejornais. O filme utiliza ainda outros filmes, como O Garoto (1921) e Outubro (1925) e muitos registros da Primeira Guerra Mundial.

Bibliografia

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CAPELATO, M. H. e outros (orgs.). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. 2ª ed. SP, Alameda Casa Editorial, 2011.

KORNIS, Monica A. Cinema, Televisão e História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.

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