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  Título
Das Imagens Sobreviventes [ou A Escória do Arquivo de Nossos Tempos]
Autor
MILENA SZAFIR
Resumo Expandido
Assemblage, Collage, Cento, Pasticcio, Patchwork, Antropofagia, Pastiche, Paródia, Found Footage, Compilation Films, Detournement, Tropicalismo, Remix, Meme, Mash Up... Sob análise em nossa pesquisa de doutorado (“Retóricas Audiovisuais 2.0: um online found footage para um filme-ensaio...?”), aponto aqui três obras que apresentam distintos modelos de reciclagens audiovisuais: 1.“Der Riese” (videoarte, 1982), de Michael Klier – este artista tcheco nos apresenta uma sublime montagem a partir de material apropriado das câmeras de vigilância na Alemanha (“imagens de arquivo” ou “imagens descartáveis”?); 2.“The Specialist” (documentário, 1999), de Eyal Sivan – temos acesso a uma igualmente longa montagem de “inalteradas imagens”, agora a partir do extenso registro audiovisual durante os meses de um tribunal 'telemático' em Israel (que gerou o livro “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, de Hannah Arendt, então fio condutor ao filme); e 3.“S-11 Redux” (vídeo-remix, 2002), do coletivo GNN [Guerrilla News Network] – a partir de fragmentos selecionados entre mais de 20 horas de imagens de 13 redes televisivas gravadas ao longo de um período de um mês e [re]editados como uma “sound-bite blitzkrieg”, produziu-se um diálogo às mensagens pelas quais os EUA – senão o mundo contemporâneo como um todo – foram [fomos] bombardeados através da cobertura veiculada pelos “mainstream media” em discussão.



Neste curto espaço-tempo de apresentação, propomos uma indagação ao tema deste encontro: “Imagens Sobreviventes como 'Escória do Arquivo de Nossos Tempos'?” e debrucemo-nos sobre “S-11 Redux: (Channel) Surfing the Apocalypse'”, em claro diálogo com o texto de Horwatt (2008).



Assim, ao elegermos decupar esta obra (10'53'') – aqui em detrimento das demais acima citadas – procuraremos demonstrar o alcance político dessas aparentemente “imagens descartáveis” à possibilidade de uma escrita audiovisual ensaística através do que Umberto Eco chamaria de “formas de uma futura guerrilha da comunicação” como “uma manifestação complementar às manifestações da Comunicação Tecnológica, a correção contínua das perspectivas, a verificação dos códigos, a interpretação sempre renovada das mensagens de massa. O universo da comunicação tecnológica seria atravessado então por grupos de guerrilheiros da comunicação que reintroduziriam uma dimensão crítica na recepção passiva”, tendo em mente que designamos por “ensaio” um método de discussão de ideias, a expressão de um método de experimentação de reflexão de algumas ideias para diálogos com o espectador, que transforma o audiovisual em um instrumento de conhecimento, onde “materiais de arquivo” ao serem [re]apropriados tornam-se elementos de uma montagem que visa estabelecer uma coordenação discursiva da argumentação reflexiva sobre o auferido, desde contextualizações a descontextualizações e recontextualizações.



A análise desta obra nos serve como símbolo da linguagem e estética de uma geração à primeira década deste novo século, fortemente marcada pelo acesso aos meios digitais de produção e por uma prática massiva do detournement audiovisual desde a TV, como “uma máquina de produzir ao infinito o presente representado e uma memória capaz de estocar o tornar-se arquivo sem limite. ... a que se pode recorrer novamente, não somente como testemunho do passado, mas também em lugar de uma imagem ao vivo impossível ... é assim um banco de todas as imagens, inclusive as do cinema” (Fargier, 2007), até os fluxos dinâmicos dos atuais bancos de dados online.



Devemos nos perguntar – nesta exponenciação e proliferação de obras audiovisuais que dialogam a partir da saturação imagética que frui ao nosso [in]consciente – quais imagens sobreviverão [ou têm sobrevivido, ou mesmo queremos que sobrevivam] neste acervo que destinamos ao futuro. Afinal, a importância da “retórica audiovisual” reside num princípio político, crítico e de reflexão frente aos arquivos herdados culturalmente e seus [im]pactos.
Bibliografia

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DEBORD, G. A User's Guide to Détournement (1956). In: KNABB, Ken, 2006.

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FARGIER, J. Video Gratias. In Cadernos Videobrasil, 2007.

HORWATT, E. Refuse is the Archive of Our Times: The Metaphorical and Expressionistic Use of Found-Footage in the Documentary Films of Adam Curtis and Craig Baldwin, 2008.

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