/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Ainda narrar: a montagem por serialização em News from home
Autor
Tatiana Hora Alves de Lima
Resumo Expandido
Construído a partir de uma deriva pela cidade de Nova Iorque, o ensaio News from home (1977) é um filme-epístola em que ouvimos a voz over da própria diretora, Chantal Akerman, lendo cartas escritas por uma mãe perguntando por notícias da filha, Chantal, que teria saído da Europa para morar em Nova Iorque, indo atrás de oportunidades na área de cinema, enquanto sobrevive trabalhando num restaurante. O filme apresenta longos planos fixos, e também travellings e panorâmicas a partir de carros, metrôs, ou por uma câmera que parece andar a pé. A narradora não se apresenta a nós, não fala de si, e está escondida sob os planos aparentemente impessoais.



A narradora de News from home narra a experiência através de imagens, certamente de um modo muito diferente daquele do narrador tradicional tal como definido por Walter Benjamin (1987). Ele constata a morte do narrador, que transmitiria a experiência por meio da oralidade de geração a geração, e contribuiria para conformar a tradição de uma comunidade. Benjamin (2000) argumenta que existe uma relação entre o modo de percepção na modernidade e a forma como o trabalho é realizado no capitalismo. Diferente do artesão, que acompanha no decorrer do tempo as fases de produção do objeto, o operário trabalha com um produto em fases fragmentárias do processo de produção, incapaz de desenvolver uma experiência plena (erfahrung), com início, desenvolvimento e conclusão, e de narrá-la através da memória. Assim, na modernidade as vivências (erlebnis) seriam o modo de percepção caracterizado pela fragmentação, excesso de estímulos e isolamento do sujeito. Benjamin defende que essa percepção estaria impregnada na própria forma do cinema, arte e técnica que apresentaria em sua estética a descontinuidade e a efemeridade da vivência no cotidiano das grandes cidades.



Mas ao falar em morte do narrador, Benjamin abordava o desaparecimento dos narradores tradicionais, e não o fim da narração. O autor identifica em escritores da literatura moderna, a exemplo de Baudelaire, Proust e Kakfa novas formas de narração que, inclusive, encenavam a impossibilidade da realização de uma experiência contínua na modernidade, e iam de encontro a uma narrativa totalizante.



Assim, analisamos no ensaio News from home a possibilidade de ainda narrar, através da imagem técnica. Se o narrador tradicional, segundo Benjamin, imprimia na narrativa as suas marcas como “as mãos do oleiro na argila do vaso”, em News from home essas marcas correspondem aos elementos estéticos da subjetiva indireta livre, definida por Pasolini (1982) como o recurso segundo o qual o filme é elaborado em conformidade com o olhar de um determinado personagem, mas rompendo com a dicotomia entre subjetivo e objetivo.



Em News from home, a relativa independência dos quadros na montagem, e o modo como os personagens entram e saem de cena de forma aleatória, nos remetem a uma paixão esteticista pelas virtudes poéticas da linguagem da realidade existente no cinema de poesia, descrita por Pasolini (1982, p.147) como “a técnica que consiste em fazer entrar e sair as personagens do plano, e que faz com que a montagem, por vezes de forma obsessiva, resulte numa série de “quadros” (...)”. News from home apresenta uma sucessão de quadros que nos permite falar em uma espécie de montagem por serialização. O esvaziamento da ação, a temporalidade dilatada dos planos, os cortes abruptos, a repetição das coordenadas do enquadramento, promovem a montagem por serialização que nos remete a uma experiência de tédio vivido na grande cidade devido a uma rotina repetitiva de trabalho que expropria o tempo dos sujeitos, como argumenta Benjamin (2006) em Tédio – o Eterno Retorno, nas Passagens. Apesar da serialização das imagens, o filme resiste à temporalidade acelerada da indústria capitalista: as imagens-tempo (DELEUZE, 2005) nos convidam a contemplar, a durar, enquanto a linha de montagem não espera.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Passagens. Editora UFMG – Belo Horizonte, 2006.

__________________Magia e técnica, arte e política. Editora Brasiliense, 3° edição – São Paulo, 1987.

_________________ Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 2000.

PASOLINI, Pier Paolo. Empirismo hereje. Lisboa – Assírio e Alvim, 1982.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo – Editora Brasiliense, 2005.