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  Título
Até a vista – por um cinema contra fronteiras
Autor
Maria do Socorro Sillva Carvalho
Resumo Expandido
O cinema é um lugar privilegiado para o debate acerca das diversas “fronteiras” que nos constituem como seres culturais. Uma valiosa ilustração da capacidade que tem o cinema de pensar nessa perspectiva é a série Fronteiras – 8 diretores ultrapassando limites, um programa da rede de televisão por assinatura TNT– Latinoamérica (TNTLA), produzida pela 100 Bares producciones, empresa do cineasta argentino Juan José Campanella, mentor do projeto e também apresentador de cada um dos episódios. Levada ao ar entre seis e 29 de dezembro de 2011, nas palavras de Campanella, a série trata a fronteira “como um limite em vários sentidos, um limite entre lugares físicos, culturas, idiomas, formas de se relacionar – um limite que precisa ser cruzado".

A concepção temática e o contexto dessa produção nos remetem aos estudos de Néstor García Canclini, pensador atento às complexas questões culturais que envolvem a América Latina, hoje, a começar pela definição mesma de América Latina, esse imenso e diverso continente que se estende da Argentina ao México, mas que excede seus limites geográficos “num mundo de migrações maciças e comunidades transnacionais” (2008, p. 16). “Quem quer ser latino-americano?” – pergunta Canclini, que discute as dificuldades da resposta argumentando que “depende de onde se exerça a tarefa” de ser latino-americano na escala atual do mundo globalizado.

Para a realização dos filmes, os dez diretores convidados – oriundos de seis países latino-americanos – foram desafiados a explorar as fronteiras da arte de contar histórias com curtas-metragens de no máximo de vinte minutos, que explicitassem o tema proposto em seu âmbito cinematográfico, mantendo o estilo e o contexto que definem sua obra. Desde que representassem a diversidade dos pontos de vista das diferentes culturas envolvidas no projeto, cada realizador estaria livre para tratar da fronteira a partir de seu ponto de vista, podendo ser a fronteira que separa dois países ou duas pessoas, a que existe entre linguagens, culturas ou famílias, as que são construídas por palavras e silêncios e até aquelas impostas pelo passado e pelo futuro.

Dois filmes brasileiros – Até a vista, de Jorge Furtado, e A teu lado leve, de Flavia Moraes – foram exibidos no quarto e oitavo episódios dessa série Fronteiras, com duração de dezoito e dezenove minutos, respectivamente. Não por acaso, ambos os diretores são gaúchos, e declaram em entrevistas feitas para a apresentação dos curtas-metragens suas íntimas relações com os países vizinhos, Uruguai e Argentina, para onde se dirige cada um dos protagonistas dos filmes.

Até a vista trata de Fernando, um jovem cineasta porto-alegrense em busca de uma boa história para a realização de seu primeiro longa-metragem. No início do filme, ele encontra o romance Fronteiras, do argentino Borges Escudero. Ao contrário do personagem do livro, esse encontro o faz rapidamente atravessar a fronteira do Brasil com a Argentina para comprar os direitos fílmicos do romance. Ainda uma pequena travessia, pois do centro de Porto Alegre basta a Fernando atravessar a Avenida Borges de Medeiros para alcançar a conhecida Avenida Nove de Julho, em Buenos Aires, tal é a proximidade entre as duas cidades, conforme as imagens de Jorge Furtado.

Além das tantas fronteiras físicas delineadas para serem logo ultrapassadas, o filme de Jorge Furtado quer discutir ainda fronteiras de linguagem, em particular entre a literatura e o cinema, questão que vai sendo tecida ao longo da narrativa, a partir do projeto de adaptação fílmica do romance Fronteiras imaginado pelo jovem cineasta. E a viagem a Belém também será usada para a explicitação do embate sempre presente quando um romance vai ser transposto para o cinema, quando o texto impresso no papel vai ser traduzido em imagens e sons para uma tela.

Bibliografia

CARVALHO, Maria do Socorro Silva. “Para além das fronteiras – o cinema em outras rondas das Américas” in MELLO, A. M. L. e CORDEIRO, V. M. R (org.), Literatura, memória e história: travessias literárias e culturais. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p.67–97.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. Latino-americanos à procura de um lugar neste século. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Iluminuras, 2008.

RAMIL, Vítor. A estética do frio. In: GONZAGA, S. e FISCHER, L. (coord.). Nós, os gaúchos. 2ª ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1993, p. 263–270.

STAM, Robert. A literatura através do cinema; realismo, magia e a arte da adaptação. Trad. M-A. Kremer e G. R. Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

VILCHES, Lorenzo. A migração digital. Trad. M. I. V. Lopes. São Paulo: Loyola, 2003.