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  Título
O campo e a cidade no cinema silencioso pernambucano
Autor
Luciana Corrêa de Araújo
Resumo Expandido
“Recife, a bela metrópole de Pernambuco onde todos desejam viver”, decreta um dos intertítulos iniciais de "Jurando vingar" (Ary Severo, 1925), filme no qual a cidade serve como moldura para uma história toda ela acontecida na zona rural canavieira e narrada em flashback durante a visita do protagonista a um amigo, morador de um belo palacete em bairro nobre da capital pernambucana. O letreiro aponta com precisão a postura dominante nos filmes de enredo silenciosos realizados por produtoras pernambucanas. Em geral o que se sobressai é a atração pela modernidade urbana, enquanto o campo tradicional, embora preserve valores importantes como a religião, é representado como lugar de brutalidade e exploração, signos de um atraso que deve ser superado. Nesse sentido, a cidade constitui perspectiva de avanço e mudanças. No entanto, não só na cidade quanto no outro tipo de campo representado, aquele que se moderniza, é preciso preservar ou readequar tradições, mantendo privilégios e relações de poder históricos que o encanto pelo progresso capitalista não deve eliminar.

A comunicação propõe investigar as relações entre campo e cidade em filmes de ficção pernambucanos dos anos 1920. Eixo dos mais relevantes em todo o cinema silencioso latino-americano, as relações entre campo e cidade também são marcantes na produção pernambucana do período. A partir desse eixo, é possível não só analisar as tensões, proximidades, idealizações e ambiguidades presentes na representação dos dois espaços como também abordar tanto o diálogo quanto o embate entre tradição e modernidade.

No ensaio “A cidade, o campo”, Jean-Claude Bernardet aborda a questão no cinema brasileiro e argumenta que essa dicotomia “expressa o avanço do capitalismo no Brasil, ao mesmo tempo sedutor e destruidor”. Ana López, por sua vez, no artigo “Early cinema and modernity in Latin America”, insere a dialética entre rural e urbano na discussão sobre tradição e modernidade no cinema silencioso latino-americano, comentando uma série de títulos, de nacionalidades diversas. Tomando os dois textos como balizas, esta comunicação irá analisar, entre outros aspectos, a representação da cidade como espaço de modernidade mas também de negociação entre os valores tradicionais e os novos comportamentos, em "A filha do advogado" (Jota Soares, 1926) e "No cenário da vida" (Luís Maranhão, 1930); a violência e as conflituosas relações de classe entre proprietário e camponeses em "Revezes..." (Horácio de Carvalho, 1927); a visão moderna e lucrativa do campo em "Jurando vingar" (Ary Severo, 1925); a trajetória do litoral para a cidade do protagonista de "Aitaré da Praia" (Gentil Roiz, 1925).

Todos são títulos com cópias preservadas, seja na íntegra ou em fragmentos. No entanto, também serão considerados filmes não preservados, tomando como base a pesquisa em periódicos, depoimentos e fotografias.

Bibliografia

ARAÚJO, Luciana Corrêa de. “Melodrama e vida moderna: o Recife dos anos 1920”. Cadernos de Pós-Graduação. IAR/UNICAMP, v. 3, 2006, p. 113-128.

BERNARDET, Jean-Claude. “A cidade, o campo”. In: Rocio, Celina do et al. Cinema Brasileiro: 8 Estudos. Rio de Janeiro: MEC/Embrafilme/Funarte, 1980, p.138-150.

BERNARDET, Lucilla Ribeiro. O cinema pernambucano de 1922 a 1931: primeira abordagem. São Paulo, 1970.

CUNHA, Paulo. A utopia provinciana – Recife, cinema, melancolia. Recife: Editora Universitária UFPE, 2010.

LÓPEZ, Ana M. “Early cinema and modernity in Latin America”. Cinema Journal, v.40, n.1, 2000, p.48-78.

RAMOS, Alcides Freire. “Para um estudo das representações da cidade e do campo no cinema brasileiro”. Revista de História e Estudos Culturais, v.2, ano 2, n.2, abril/maio/junho 2005. Disponível em http://www.revistafenix.pro.br/PDF3/Artigo%20Alcides%20Freire%20Ramos.pdf