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  Título
A IMAGEM DO FEMININO EM FRIDA KAHLO
Autor
Aurélia Regina de Souza Honorato
Coautor
EDLA MARIA SILVEIRA LUZ
Resumo Expandido
Onde as imagens nascem? Existe um lugar? Para Coccia (2010) esse lugar, o lugar do sensível “não coincide nem com o espaço dos objetos - o mundo físico – nem com o espaço dos sujeitos cognoscentes”. (p.30) É o meio. É a recepção mesma. “A potência do meio é a recepção, e toda teoria da medialidade é uma teoria da recepção” (p.31). Estudos sobre a imagem vêm sendo recorrentes em diversas pesquisas voltadas para as questões dos estudos sobre a cultura, e o mundo contemporâneo tem apresentado formas diversas de relação do humano com as imagens. Este texto apresenta um olhar para o filme Frida (2002) dirigido por Julie Taymor, que é baseado na biografia da artista mexicana Frida Kahlo, escrita por Hayden Herrera e considerada fidedigna a vida da artista. Um estudo que busca escapar das abordagens de arte que veem a produção de subjetividade como um esquema de comunicação – emissor/mensagem/receptor e, que, assim como Deleuze (1999), acredita na arte como ato de resistência e como espaço de absoluta necessidade de dizer do artista. Percebe-se que o roteiro destaca diferentes momentos de perda e superação de Frida em relação aos problemas de saúde que enfrentou durante a sua vida. O filme também aborda com ênfase o relacionamento de Frida Kahlo com Diego Rivera, artista muralista, militante do partido comunista, preocupado com as questões sociais de seu país, o México. E é através das “dores do corpo” que lhe tocam a alma, que Frida faz de sua história de dor uma transformação pela arte. Frida e seu autorretrato na busca de produzir-se, retratar-se afirmando sua posição no mundo. Em um momento do drama vivido por Frida através do filme, exploramos a cena em que Diego e a irmã de Frida, Cristina, fazem sexo e são surpreendidos por Frida e seus sobrinhos, uma cena que nos revela as expressões de ciúmes da artista diante da infidelidade. Nesse momento Frida rompe seu relacionamento com Rivera e também com sua irmã e tenta levar a vida adiante, como mulher independente e que vive de sua arte. Depois desse incidente a conotação de forte carga emocional vivida por Frida diante da traição de Rivera com sua própria irmã, nos apresenta cenas impactantes onde Frida corta agressivamente os cabelos e bebe na garrafa “a sua dor, a sua amargura”. O filme apresenta neste momento um misto de película e tela, a tela intitulada Autorretrato com o cabelo cortado (1940), uma mistura de imagens que acabam por deixar o espectador atônito com o que ele vê e com aquilo que o olha. “O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável, porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha” (Didi-Huberman 1998, p.29). Didi-Huberman acompanha Coccia na perspectiva da medialidade. Só conseguimos ver quando assumimos a inelutável cisão do ver. É quando se deixa de tentar ler um quadro e passa-se a vê-lo. O desafio da artista ao fazer seus autorretratos apresenta esta cisão. Mesmo que busque representar exatamente o que vê, isto que vê a olha e torna-se outra visão. Objetivamos neste trabalho, a partir da análise da imagem fílmica e da relação que esta tem com a produção pictórica da artista, encontrar traços da feminilidade de Frida ameaçada por sua angústia na existência da sua dor olhando para as fronteiras entre o que Frida viveu o que ela retratou em sua produção e o que sua biografia conta. A produção artística de Frida Kahlo, assim como seu modo de viver e se vestir provocam inquietações e com elas, diferentes opiniões, críticas e comentários vão aparecendo. Inquietações que levam homens e mulheres a questionarem o papel da sexualidade feminina na vida artista. O texto privilegia os entrelaçamentos com as teorias de Emanuele Coccia, Georges Didi-Huberman, Michel Foucault, Gilles Deleuze & Felix Guattari no ponto onde criticam a subjetividade clássica/moderna.
Bibliografia

COCCIA, Emanuele. A Vida Sensível. Tradução Diego Cervelin. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2010.

DELEUZE, Gilles. O ato de criação. Trad. José Marcos Macedo. Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 27 de junho de 1999.



DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Ed.34, 1998.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber; tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque, A A. Guihon Albuquerque. 14ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001. v.1.

FRIDA. Direção de Julie Taymor, Produção de Sarah Green, Salma Hayek, Jay Polstein, Roteirista: Diane Lake e outros. Com Salma Hayek e Alfred Molina. Local: Estados Unidos, Miramax Filmes, 29 de agosto de 2002. 123min.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. 3a. Edição. São Paulo: Paz & Terra, 2005