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  Título
ESCRITURAS E FIGURAÇÕES DO ENSAIO
Autor
Henri Arraes de Alencar Gervaiseau
Resumo Expandido
Examinarei uma série de questões relativas ao ensaio como escrita e como expressão do movimento de um pensamento, bem como as questões especificas que a existência de ensaios audiovisuais coloca. Este exame terá por base uma revisão sintética de uma seleção de textos, hoje clássicos, de autores alemães; de parte da bibliografia francesa recente que rediscute diferentes tradições do ensaio desde Montaigne; bem como tentativas recentes de sistematização e características singulares da produção suscetível de ser classificada ensaística, no campo audiovisual, que estas tentativas provenham do domínio dos estudos cinematográficos, ou da história da arte. Irei me referir sinteticamente, num primeiro momento, a um conjunto de questões relativas ao ensaio considerado de modo mais amplo; em seguida, abordarei questões mais especificas que a existência do ensaio audiovisual coloca.

Apontarei, inicialmente, que na emergência do ensaio encontra-se uma valorização da experiência, vivida na duração, onde a busca da verdade envolve a existência singular de um sujeito; e que a expressão escrita desta experiência, configura, por sua vez, um processo de cunho experimental. Examinarei, em segundo lugar, quais modalidades de escrita e de composição de discurso encontram-se envolvidas na elaboração de ensaios, sublinhando o estatuto sempre problemático do ensaio como classe textual, no limiar da poesia e da prosa, em que se faz presente, de modo recorrente, o recurso a procedimentos tradicionalmente considerados como pertencentes ao universo da ficção. Em seguida, irei abordar a dimensão dialogica do ensaio, enquanto classe textual que visa contribuir para emergência de questionamentos, provocar confronto de idéias, fazer ouvir varias vozes, misturar diferentes linguagens, que entretém, entre si, relações de conflito. Mostrarei que se o modo de composição do ensaio é fundado, do ponto de vista semântico, sobre o entrecruzamento de múltiplas associações de idéias, a sua escrita se constitui, de modo geral, através da apropriação de outros textos, da mistura de citações, através, em suma, de um jogo intertextual a partir do qual orquestram-se idéias heterogêneas.

Ao abordar de modo mais especifico o ensaio audiovisual, irei sublinhar que o jogo intertextual acima referido torna-se mais complexo, na medida em que nele atua uma maior variedade de matérias de expressão. Lembrarei que a sobrevivência das imagens é a condição da possibilidade da memória e que é a sobrevivência latente dos rastros psíquicos na memória que permite o reconhecimento, o ato concreto através do qual apreendemos o passado no presente, ato mnemônico por excelência que coroa o trabalho de busca (anamnese) ou de encontro involuntário com o passado (reminiscência).

Será possível indicar então, a partir da evocação de algumas obras cinematográficas e videográficas de cunho ensaístico, estrategicamente escolhidas, que na base de muitos projetos, encontra-se o conhecimento do laço intimo existente entre a memória e a imagens que constituem o seu conteúdo, e que, consequentemente, os realizadores, buscam, deliberadamente, trabalhar no limiar dos rastros materiais (os fotogramas ou frames) e dos rastros psíquicos (imagens imateriais que formam o conteúdo da memória), para constituir uma figuração do trabalho da memória, processo entendido no seu devir e não como simples resultado.

Veremos que uma das modalidades de associação das matérias de expressão que caracteriza muitos ensaios audiovisuais é o da justaposição dinâmica destas matérias, bem como da sua progressão sinuosa e enigmática, procedimentos que se encontram na base da composição das figuras de pensamento que estas obras propõem.

Veremos, finalmente, que uma característica frequente do ensaio audiovisual é de favorecer, através diversos procedimentos de montagem e de construção do relato, a emergência, no espirito do espectador, de duvidas a respeito das relações existentes entre a palavra, a imagem e o seu referente.

Bibliografia

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Bense, Max: L’essai et sa prose, in: Trafic, n.20. p.134-142.

Bergson, Henri: Matéria e memória. SP: Martins Fontes. 1999.

Didi-Huberman, Georges: Remontages du temps subi. L’oeil de l’histoire, 2. Paris: Les Éditions de Minuit. 2010.

Gervaiseau, Henri Arraes: O abrigo do tempo. SP: Alameda Editorial. 2012.

Glaudes, Pierre (org.): L’essai, métamorphoses d’un genre. Toulouse: Presses Universitaires du Mirail, 2002,

Liandrat-Guigues, Suzanne et Gagnebin, Murielle: (dir.): L’essai et le cinéma. Seyssel: Éditions Champ Vallon, 2004

Mathieu-Castellani, Gisèle: Montaigne, l’écriture de l’essai. Paris: PUF, 1988.

Migliorin, Cezar: Ensaios no real. O documentário brasileiro hoje. RJ: Azougue Editorial. 2010

Obaldia, Claire de: L’esprit de l’essai. De Montaigne à Borges. Paris: Seuil. 2005.

Starobinski, J.: « Peut-on définir l’essai?», in Cahier pour un temps n°5, 1985, pgs.185-196