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  Título
Estilo e autoria no cinema de Hitchcock.
Autor
Maria Julia Évora Constantino
Resumo Expandido
A cena do assassinato no chuveiro do filme Psicose, de Alfred Hitchcock, uma das mais famosas cenas do cinema mundial, tem gerado uma enorme polêmica em torno de sua autoria, desde a década de 1970. Esta polêmica sobreviveu até os nossos dias e vem sempre ganhando novas cores. Recentemente ela foi atualizada com a reedição do livro "Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose", de Stephen Rebello (Rio de Janeiro: Intrinseca, 2013), cuja primeira edição data de 1990.

Saul Bass, grande designer gráfico e consultor visual do longa metragem, reivindica para si a autoria de tal cena. Em uma entrevista dada em 1973 para a revista inglesa London Sunday Times, ele afirma que, além de desenhar (decupar visualmente) a cena, também a dirigiu. Segundo seu relato: “(...) todo mundo ficou louco com a cena do chuveiro que fiz, quase literalmente tomada por tomada, a partir dos meus desenhos. E aí Hitchcock pensou duas vezes” (apud, REBELLO, 2013, p.124). Relato semelhante é encontrado em uma matéria publicada na revista Variety (Nova Iorque), de 1981.

Hitchcock, por sua vez, afirma que ele próprio dirigiu tal cena. Em uma entrevista dada a Truffaut, presente no livro "Hitchcock / Truffaut: entrevistas" (São Paulo: Companhia das letras, 2004), Hitchcock garante que contratou Bass para fazer os créditos do filmes e o deixou realizar os desenhos para apenas uma cena, que não a do assassinato no chuveiro. Diz ele: “Saul Bass devia fazer os créditos e, como o filme o interessava, deixei- o desenhar uma cena, a do detetive Arbogast subindo a escada antes de ser apunhalado. [...] Quando vi os copiões da cena, percebi que não estava bom ...” (p.278). Nessa entrevista, portanto, o diretor vai relembrar os desenhos do designer para a cena que antecedeu o assassinato, sem sequer mencionar a existência dos storyboards da cena do chuveiro. Deve-se aqui lembrar também que a sequência do detetive subindo a escadaria da casa é, em termos de enquadramentos e montagem, quase tão especial quanto a do chuveiro.

De acordo com a reconstrução dos bastidores do filme realizada por Stephen Rebello, esta polêmica justifica-se, visto que não há consenso sobre autoria da cena em questão nem mesmo entre pessoas que faziam parte do set de filmagem . A figurinista Rita Riggs, por ex. diz ter lembranças do storyboard de Bass. Também a atriz principal, Janet Leigh, apesar de reconhecer que a cena foi dirigida exclusivamente por Hitchcock, afirma ter visto os desenhos de Saul Bass nas mãos de Hitchcock e que conhecia os storyboards desde o início das filmagens. Por outro lado, o continuísta, Marshall Schlom, contou que jamais viu “um storyboard da forma como os concebemos hoje”. Também o assistente de direção, Hilton Green, nega veementemente a participação de Bass na direção da cena em questão e classifica esta reivindicação como ridícula.

Diante desta polêmica, propomo-nos analisar os traços construtivos (enquadramento, iluminação, textura, figura/fundo, corte, duração etc) da seqüência em questão e estabelecer aproximações ou similitudes estilísticas entre eles, os desenhos do storyboard e a abertura do filme, ambos realizados por Bass, o que nos levará a ter elementos para a discussão da autoria no cinema. Para esta leitura iremos nos amparar nas decupagens, por nós realizadas, da cena e da abertura, no storyboard do filme e nas indicações teórico-práticas de Michel Marie e Laurent Jullier ("Lendo as imagens do cinema". São Paulo: SENAC, 2009), Jacques Aumont ("O Olho Interminável, Cinema e Pintura". São Paulo: Cosac & Naify, 2004) e René Gardies et alii (em "Compreender o cinema e as imagens". Lisboa: Texto&Grafia, 2008). Com esse estudo pretende-se fornecer subsídios para se colocar em prática um novo modo de discussão da questão autoral no cinema.

Bibliografia

Truffaut, F. "Hitchcock / Truffaut: entrevistas". São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

REBELLO, S. "Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose". Rio de Janeiro: Intrinseca, 2013.

AUMONT, J. "O Olho Interminável, Cinema e pintura". São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

GARDIES, R.(org.). "Compreender o cinema e as imagens". Lisboa: Texto&Grafia, 2008.

MARIE, M e Jullier, L. "Lendo as imagens do cinema". São Paulo: SENAC, 2009.

LAGES, S. "Tradução e Melancolia". São Paulo: EDUSP, 2002.

BENJAMIN. W. "A tarefa do tradutor", trad. de Fernando Camacho. In: BRANCO, L. C (org.), "A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2008.