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  Título
Cineclubes Piratas: aparatos tradicionais com tecnologia imprópria
Autor
Gabriel Menotti
Resumo Expandido
Esse artigo acompanha os primeiros anos de funcionamento do Cine Falcatrua (2003-2005), um cineclube capixaba que utilizava computadores caseiros para exibir filmes baixados da Internet em sessões semanais gratuitas. Particularmente, o texto analisa como a prática do grupo pôde promover um rearranjo pioneiro do aparelho cinematográfico, ao empregar dispositivos digitais domésticos e formas on- e offline de conexão ponto-a-ponto. Procurarei demonstrar como essa atividade, ainda que tenha resultado em um processo civil de companhias de distribuição cinematográfica contra o Cine Falcatrua, viria a influenciar indiretamente algumas das políticas culturais do governo brasileiro, contribuindo para a formatação de um certo tipo de instituição cinematográfica no país.



Sob essa luz, pretendo examinar o papel da pirataria no desenvolvimento de sistemas midiáticos, primeiro como apropriação tática dos recursos disponíveis, depois como a criação de outras modalidades de interação entre máquinas, contribuindo para o processo de genesis de um novo aglomerado (assemblage) sociotécnico. Buscarei demonstrar como práticas desautorizadas podem desafiar a autossuficiência dos aparelhos estabelecidos ao empregar o potencial de funcionamento das novas tecnologias, doravante abrindo caminho para a implementação dessas tecnologias dentro das normas vigentes. Nesse sentido, a pirataria pode ser entendida como uma forma coletiva e não-sancionada de adoção prematura (early adoption) das novas tecnologias, que se daria não inteiramente em oposição aos mercados e regimes de consumo cultural tradicionais, mas sim como um suplemento necessário, que permite a esses campos institucionalizados negociar e absorver o desenvolvimento tecnológico.



Por meio dessa análise, buscarei demonstrar como o processo de especificação da tecnologia mediática envolve não apenas a transformação de operações primárias ao meio (como a distribuição e o consumo de filmes), mas também a consolidação de estruturas ancilares que promovem e regulamentam essas atividades primárias (desde fanzines educacionais até editais de patrocínio estatal). Em conclusão, sugiro que práticas emergentes similares a do Cine Falcatrua, de modo a se tornarem próprias ao meio, precisam ou se cristalizar como parte do circuito cinematográfico ou serem expurgadas para outros campos de circulação simbólica (como a arte contemporânea ou as “novas mídias”).

Bibliografia

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