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  Título
Adam Curtis e John dos Passos: a nova e velha montagem
Autor
Pedro Henrique Trindade Kalil Auad
Resumo Expandido
Cinema e literatura sempre estiveram juntos, algumas vezes mais próximos, outras vezes mais distantes; algumas vezes foi o cinema que emprestou da literatura, outras, foi o contrário. A percepção de que o caminho era de mão dupla, por exemplo, foi percebido por Victor Shyklovsky, em seu livro Literature and Cinematography, já em 1922: “o cinema emprestou a trama da literatura, mas, no processo, a trama literária experimentou profundas mudanças”. Em outros momentos, o diálogo foi definidor das teorias do cinema, como no texto de Sergei Einsenstein, Dickens, Griffith e Nós, apontando a inspiração literária para o nascimento da linguagem cinematográfica através da montagem entre o cineasta americano D.W. Griffith e o escritor, também americano, Charles Dickens.



Essas relações, inspirações e diálogos intersemióticos não desapareceram. Pode-se argumentar ainda que são cada vez mais intensos e com uma via de mão dupla: o cinema e a literatura se retroalimentam constantemente: adaptações fílmicas de obras literárias (e vice-versa), estruturas audiovisuais na literatura (nas obras de Safran Foer, por exemplo) ou o tema cinema como objeto da literatura (Manuel Puig), ou filmes divididos em capítulos, como nos livros (Wes Anderson) e assim por diante.



Porém, a situação do britânico Adam Curtis chama a atenção. A influência que ele aponta em seus filmes, da literatura, tem uma correlação direta com aquelas inicialmente desenvolvidas nos primórdios da revolução soviética: na montagem. Curtis mesmo assume essa influência: “a maior influência que já tive na verdade foi uma novela que meu pai me deu quando eu tinha 13 anos. Era uma novela chamada USA de John dos Passos. Naquela idade, ela me pegou. Você pode buscar tudo que eu faço nessa novela porque é tudo sobre a grande história, experiência individual, suas relações. E também colagens, citações de jornal de notícias, cinema, jornais impressos. E é também sobre a colagem da história”.



Curtis utiliza em seus documentários principalmente imagens de arquivo para criar grandes histórias sobre como e porque o mundo é como hoje. O bordão de abertura de seus filmes “this is a story” [isso é a história], invoca diversos problemas para se pensar o documentário contemporâneo que pode ainda ser pensar sob a luz da influência que dos Passos exerceu sobre sua obra.



Esse trabalho pretende relacionar a obra de Curtis – The Trap: What Happened with our Dream of Freedom; The Power of Nightmares; It Felt Like a Kiss e All Watched Over by Machines of Loving Grace - e dos Passos – e sua USA Trilogy - para tentar demarcar os procedimentos de montagem do documentarista inglês. Através da análise desses procedimentos, queremos refletir sobre esse modelo de documentário que utiliza principalmente arquivos de imagens e sons na montagem dos filmes e sobre a dúbia relação entre imagem e verdade.

Bibliografia

COMOLLI, J.L. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



CURTIS, Adam. INTERVIEW: ADAM CURTIS. . Acesso em 29/03/2013.



EISENSTEIN, Serguéi. Dickens, Grifftith e Nós. In: A Forma do Filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2002.



MOGLEN, Seth. Mourning Modernity: Literary Modernism and the Injuries of American Capitalism. Palo Alto: Stanford University Press, 2007.



PASSOS, John Dos. U.S.A.: The 42nd Parallel / 1919 / The Big Money. New York: Library of America, 1996.



SHKLOVSKY, Viktor. Literature and Cinematography. Londres: Dalkey Archive, 2008.



Suarez, Juan A. John Dos Passos's USA and Left Documentary Film in the 1930s: The Cultural Politics of "Newsreel" and "The Camera Eye". In: American Studies in Scandinavia, V. 31, 1999.