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  Título
O ESPECTADOR NOS FILMES DE BOLSO
Autor
Kênia Cardoso Vilaça de Freitas
Resumo Expandido
Em maio de 2009 Roger Odin publica no site do festival de filmes feitos com celular Pocket Films o texto “Le ‘Pocket Film Spectateur’” em que discute a recepção dos filmes exibidos pelo festival (disponível em: http://www.festivalpocketfilms.fr/communaute-42/reflexions/article/le-pocket-film-spectateur-par.). Odin começa por sublinhar que, para os responsáveis pela curadoria, os filmes feitos com celular são inquestionavelmente “cinema” – entendendo cinema como “produções cinematográficas feitas para serem vistas em uma sala escura e em uma tela grande”. Essa definição descarta toda uma categoria de filmes amadores feitos com celular para serem vistos nos próprios aparelhos: registros de viagem, filmes familiares ou ativistas, entre outros. O que interessa à organização do festival é que os filmes sejam vistos como “cinema” – mas “cinema de outro modo”, Odin logo acrescenta. Em outras palavras, como “cinema-feito-com-um-telefone-celular”, e não com uma câmera, resumindo como “cinema de bolso” (pocket cinéma).

Este cinema de bolso, para se diferenciar dos demais, demanda um espectador advertido de que assistirá a filmes feitos com celular. Mesmo sendo esta uma indexação exterior ao filme, o espectador não cessa de procurar nos filmes de bolso as marcas estéticas de sua origem. Assim, a pergunta “o que o diretor conseguiu fazer de diferente com seu celular em relação à uma câmera?” nunca sai do horizonte. Mais ainda, parte do prazer do espectador vem justamente de uma análise mais minuciosa sobre a forma como os filmes de bolso lidam com sua baixa qualidade de imagem, ou como o objeto celular influencia, em sua forma ou funções, o resultado final. Procurando responder a tais questões, o espectador torna-se (mais) analítico, um “espectador de filme de bolso”. Este espectador é “reflexivo, um espectador jogador que se torna, um pouco, ele mesmo, o criador dos filmes que vê; pelo menos, o co-criador, visto que sem seus esforços de troca de posicionamento, o filme não produziria os efeitos desejados”.

A partir deste deslocamento analítico o espectador de cinema de bolso pode ter esse olhar questionador e curioso sobre questões técnicas do cinema – não só o feito com celular, mas o cinema de forma geral. Odin acredita que questionar o aparelho produtor é uma forma de colocar em pauta o problema da verdade na representação fílmica contemporânea. E é justamente esse aspecto que pretendemos analisar nesta comunicação, para entender quais relações que os novos formatos cinematográficos podem suscitar no espectador. Por mais que pensemos os filmes feitos com celular como uma categoria à parte, eles partencem a toda uma nova fase do campo audiovisual e com ela dialogam. Nesse trajeto pretendemos, mais do que precisar pontos definitivos de inflexão, traçar um caminho que possibilite vislumbrar influências e filiações diversas.

Para isso, analisaremos alguns conceitos que envolvem a relação do espectador contemporâneo com as imagens. Jean-Louis Comolli chama a atenção para o fato de que o cinema é uma arte que depende fundamentalmente do engajamento do espectador nos seus jogos de crença. Para Jacques Rancière, é necessário cada vez mais que o espectador se emancipe: construindo e reconstruindo, assim, significados e traduções próprias para a arte – e não por um didatismo tutelar do artista, mas por uma relação de partilha e igualdade entre os lados. Já Georges Didi-Huberman ressalta a questão do espectador como aquele que deseja ver (ou ser ofuscado por) determinada realidade, ainda mais em um momento de holofotes espetaculares que ocultam a aparição das imagens de resistência – ou, como diz o autor poeticamente, dos vaga-lumes.

Por fim, nos deteremos na análise do filme feito com celular: After 43 years, de Khalil Mozaien (Disponível em: http://www.festivalpocketfilms.fr/films/article/after-43-years). Nesse filme, acreditamos poder encontrar as diversas questões de confrontamento com o espectador que pretendemos discutir.
Bibliografia

COMOLLI, J-L.. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

DELEUZE, G.. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.

DELIEUTRAZ, C.. L’image amateur. Réflexions, Festival Pocket Films. Disponível em: . Acesso em: 20 de março de 2013.

DIDI-HUBERMAN, G.. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2011.

HARDT, M.; NEGRI, A.. Império. Rio de Janeiro: Record, 2006.

LEJEUNE, P.. “Le pacte autobiographique (bis)”. In: Poétique 56. Paris: Seuil, 1983.

ODIN, R.. Le ‘Pocket Film Spectateur’. Réflexions, Festival Pocket Films. Disponível em: . Acesso em: 20 de março de 2013.

RAMOS, F. P.. Mas afinal… o que é mesmo documentário? . São Paulo: Senac Editora, 2008.

RANCIÈRE, J.. O espectador emancipado. Lisboa, Editora Orfeu Negro, 2010.