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  Título
Considerações sobre o uso do fora-de-quadro na encenação polanskiana
Autor
Douglas Deó Ribeiro
Resumo Expandido
Apesar de Roman Polanski ter alcançado certo sucesso, principalmente de crítica, com seus primeiro filmes, foi com 'O bebê de Rosemary' que o diretor adquiriu ampla notoriedade internacional. Talvez a principal estratégia adotada por Polanski que fez do filme um sucesso ainda maior que o romance original de Ira Levin (1967) tenha sido a abertura da explicação da trama - enquanto na literatura a protagonista é vítima de uma seita satânica, no cinema é possível pensar que tudo não passa de alucinações de Rosemary (Mia Farrow). Com esse propósito, o realizador fez duas escolhas: vinculou firmemente o ponto de vista do espectador ao da protagonista e ocultou todos as ações e elementos que pudessem endossar a explicação sobrenatural da história no fora-de-quadro.

Em filmes como 'A dança dos vampiros' (1967), 'Quê?' (1972) e 'Busca Frenética' (1988) encontram-se exemplos de uso expressivo (ou atenuante, segundo MET, 2006) do fora-de-quadro, mas neste painel realizo um estudo comparativo entre essa estratégia em 'O bebê de Rosemary' e em 'O escritor fantasma' (2010), a partir da análise de trechos de cada filme.

De todos os filmes de Polanski, 'O bebê de Rosemary' é o que melhor serve para tratar do uso do fora-de-quadro. Como ele mesmo relata em entrevista (CRONIN, 2005), este filme se estrutura como uma narrativa semi-subjetiva, em que os pontos de vista do espectador e da protagonista são muito próximos, mas nem sempre coincidentes. Essa estratégia - ponto de vista ambivalente, segundo Bordwell (2006), e câmera ancorada, segundo Caputo (2012) - é importante modo de garantir uma parcialidade visual da audiência e de construir uma atmosfera de suspeita a partir de elementos que se ocultam atrás das paredes do apartamento.

Gayraud (2006) destaca a presença de indícios, desde o começo do filme, de uma face oculta do apartamento - as riscas indicando que um pesado móvel foi arrastado, as vozes através das paredes. Todos esses elementos adquirem grande carga de significado para a personagem (e para quem a segue) com o progredir do filme. Ao mesmo tempo, a ambiguidade do filme em relação ao romance cresce justamente porque esses elementos que comprovariam a existência da seita permanecem ocultos no fora-de-quadro - o ápice dessa estratégia sendo a escolha de Polanski de nunca mostrar o bebê, diferentemente do romance, que o descreve. A ausência de materialidade imagética desses eventos fundamenta-se na concepção, derivada da filosofia tomista (CABRERA, 2006), da 'impositividade' da imagem: aquilo que se faz imagem é dotado de inquestionável realidade, portanto tudo o que está oculto, por não ser impositivo, pode ser fantasia da mente de Rosemary.

De modo diverso, 'O escritor fantasma' também faz uso do fora-se-quadro. Como ressalta Caputo (2012), neste filme tem-se a manutenção do modus operandi perene de Polanski, de colocar a câmera (espectador) na posição de observador ideal, não interferente na narrativa, e de 'ancorar' essa câmera ao personagem. Mas ele potencializa ainda mais essa presença do observador através da composição do personagem do escritor: ele funciona como esse espectador privilegiado, pouco intervindo na história, mas dando sentido à narrativa que se desenrola. Em vários momentos essa sobreposição dos olhares escritor-público se dá pelo fora-de-quadro: sequencias que começam como pontos de vista neutros da cena se revelam ponto de vista do escritor logo em seguida - indicando retrospectivamente que ele estava ali, na mesma posição que o público, quando este se julgava só.

Desta observação de dois filmes quatro décadas distantes entre si resulta, para além da recorrência patente do uso do fora-de-quadro, uma mudança na forma de estruturar a diegese: se em 'O bebê' tudo, inclusive o não visto, converge para a figura de Rosemary (sua imaginação), em 'O escritor', o ocasionalmente oculto identifica o personagem e o público, resultando numa estrutura centrífuga, que aponta para o que está além das bordas do filme.
Bibliografia

BORDWELL, David. The Way Hollywood Tells It. Los Angeles: University of California Press, 2006.

BURCH, Noel. Práxis do Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1969.

CABRERA, Julio. O Cinema Pensa. Uma Introdução à Filosofia Através dos Filmes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

CAPUTO, Davide. Polanski and Perception. The Psychology of Seeing and the Cinema of Roman Polanski. Bristol: Intellect, 2012.

CRONIN. Roman Polanski, Interviews. Mississipi: University Press of Mississipi, 2005.

GAYRAUD, Sébastien. La mémoire du ciment. In: TYLSKI, Alexandre. Roman Polanski, l’art de l’adaptation. Condé-sur-Noireau: L’Harmattan, 2006.

LEVIN, Ira. O Bebê de Rosemary. São Paulo: Editora Best Seller, 1967.

MET, Philippe. L’image entre lettre et esprit. In: TYLSKI, Alexandre. Roman Polanski, l’art de l’adaptation. Condé-sur-Noireau: L’Harmattan, 2006.

POLANSKI, Roman. Roman de Polanski. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.