/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O BRUXO SOLTO:Capitu na TV – leitura e recepção crítica da microssérie
Autor
Luiz Antonio Mousinho Magalhães
Resumo Expandido
Pretendemos debater aspectos da microssérie Capitu, rastreando dados de sua proposta estética, bem como de sua recepção crítica. Consideraremos a recepção traduzida em formatos jornalísticos, com especial atenção à crítica, mas também observando outros gêneros jornalísticos que abordaram a circulação do produto audiovisual, com enfoque mais informativo. Nesse sentido, estaremos atentos ainda para o topos recorrente nos textos sobre a recepção da microssérie por parte da audiência. Valeria também, então, enfrentar a dificuldade apontada por Hans Jauss, quando o autor assinala que “o estabelecimento do horizonte de expectativas interna ao texto é menos problemático, pois derivável do próprio texto, do que o horizonte de expectativa social” (p.50).

Procurando pensar o circuito de produção, recepção e interações, José Luiz Braga assinala que a sociedade ao lado “de seus processos de ‘produção’, sempre gerou também procedimentos críticos e interpretativos que, metalinguisticamente, ‘falam’ de seus processos materiais expressivos e das interações sociais que vão sendo tecidas em torno destes”. Braga chama a atenção para o fato de que as interações sociais em torno do livro (e das artes tradicionais) costumam atingir níveis de excelência, ao contrário do que ocorre no trato crítico sobre a mídia contemporânea. O autor destaca estudos que se empenham em discutir as estruturas específicas dos produtos, para além do mero observar os efeitos sociais do meio (p.59).

Tal percepção nos estimula a ressaltar a importância da análise de produtos, no caso através da análise fílmica, pensando ainda na possibilidade de agregar a esse gesto crítico o movimento de investigação da recepção, investindo no acoplamento de duas possibilidades interpretativas. Numa obra audiovisual que aposta em efeitos de estranhamento e familiaridade (CHKLOVSKI, 1973; MARTIN-BARBERO, 2009), em um veículo voltado para mega-audiências, condicionada ao lucro da TV comercial e à posição hegemônica da Globo, as tensões envolvendo produção, circulação consumo e resposta social remetem a situações onde a comunicabilidade com o público é levada em conta o tempo todo, o que inclui certas expectativas da crítica. Sendo a segunda obra do projeto Quadrante, Capitu obteve bons níveis de audiência, após a audiência problemática de A pedra do Reino. O tema da recuperação de público é recorrente em reportagens, entrevistas e nos textos críticos. O diretor Carvalho chega a fazer afirmações como “ainda tenho as costas cheias de cicatrizes por ter feito A pedra do Reino” e diz ter tentado no programa baseado em Ariano Suassuna a mesma comunicabilidade pretendida com Capitu.

Em Espectatorialidade e a instituição da ficção, Murray Smith assinala que todo “ato imaginativo se instaura nos limites dos recursos disponibilizados ao sujeito pelas experiências vividas no seio da cultura”. Nesse mapa de possibilidades que a cultura permite e sugere, Murray acena no sentido de que o que “importa é que a ficção possibilita explorar e expandir essas experiências” (SMITH, 2005, p.167). Gesto que parece inscrito em Capitu, como pretendemos investigar.

Vamos procurar rastrear aspectos dos diálogos que se inscrevem na própria fatura da microssérie, na tensão entre comunicabilidade x incomunicabilidade, vendo a posição da produção jornalística sobre a relação entre produção audiovisual e público. Análise fílmica e análise textual dos textos críticos terão por norte a noção de dialogismo (BAKHTIN, 1993; STAM, 1992). Aspectos do constructo ficcional serão abordados com amparo na narratologia (GENETTE, s/d; JOST, GAULDREAULT, 2009) e levaremos em conta ainda a lúcida investigação a respeito da recepção de Capitu empreendida por Renato Luiz Pucci Jr (2006), em reflexões onde rastreia esquemas cognitivos e narrativos postos em movimento entre a produção e a recepção, bem como outros textos e autores da fortuna crítica jornalística e acadêmica.

Bibliografia

BAKHTIN, M. Questões de literatura e estética. São Paulo: Hucitec, 1993.

CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: E. B. et al. Teoria da Literatura. Porto Alegre, Globo, 1973. p.39-56.

GENETTE, G. O discurso da narrativa. Lisboa: Vega, s/d.

JAUSS, H. A estética da recepção. In: LIMA, L.C. A literatura e o leitor. Rio: Paz e Terra, 1979. p.9-40

JOST, F; GAULDREAULT, A. A narrativa cinematográfica. Brasília: EDUNB, 2009.

MARTIN-BARBERO, J. Dos meios às mediações. Rio: EDUFRJ, 2009.

SMITH, M. Espectatorialidade cinematográfica e a instituição da ficção. In: RAMOS, F. (org.) Teoria contemporânea do cinema. S. Paulo: SENAC, 2005.

PUCCI Jr., R. L. Adaptação televisiva e esquemas cognitivos. In: BORGES, G. et al.(org.) Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e de Documentário. Campinas, Faro e SP, Socine, Universidade do Algarve, 2012.

BRAGA, J.L. A sociedade enfrenta sua mídia. S. Paulo: Paulus, 2006.

STAM, R. Bakhtin – da teoria literária à cultura de massa. S. Paulo: Ática, 1992.