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  Título
O Especial Efeito do Transcendente
Autor
Luiz Vadico
Resumo Expandido
Os componentes da mesa abordarão sob três aspectos distintos a forma como a manifestação do transcendental é representada em filmes sobre o sagrado.

Os novos meios mecânicos de registro da imagem, como a fotografia no fim do século XIX apontaram o caminho para a captação visual daquilo que transcendia os limites da realidade mundana. Um importante aspecto deste processo foi a chamada fotografia espírita, que se preocupava em registrar as manifestações espirituais, buscando lhes dar conteúdo de realidade. Termos como materialização, desmaterialização, médiuns e ectoplasmas se popularizaram. Artistas como James Tissot tiveram forte influência visual das experiências espíritas, passando para as telas (ou aquarelas) novos elementos distintivos da manifestação do sagrado.

Através de cineastas como Zecca, Alice Guy e Ollcott, o cinema nascente se apropriou da obra de Tissot, possibilitando a elaboração de novos elementos, absorvidos pelo imaginário social, afetando as formas tradicionais de representação. Este processo havia começado anos antes com as trucagens realizadas por Méliès, com ele o cinema buscou representar aquilo que é irrepresentável por natureza, a manifestação do transcendental. Aqui se junta o imaginário relativo ao que é o transcendente (e como este se manifesta) com os novos meios de elaborar uma imagem, possibilitados pelo cinema.

Muitas vezes apenas buscando fazer uma adaptação literária os cineastas tiveram de lidar com estes aspectos, descobrindo maneiras convincentes de mostrá-los visualmente, como fez Giuseppe de Liguoro, cineasta italiano, no filme “L’Inferno” (1911); onde buscou adaptar “A Divina Comédia” de Dante Alighieri, apoiando-se nas ilustrações de Gustavo Doré. Ele retratou não apenas o transcendente, mas os próprios mundos da transcendência. Os efeitos especiais que criou para a realização do filme emprestaram mobilidade, esteticidade e realidade para as conhecidas ilustrações de Doré. A busca de retratar o espaço por onde transita a “encarnação do mal” continuou em outros momentos da história do Cinema como se verá.

Alguns cineastas buscaram um outro aspecto da transcendência, a imanência. Em diversas obras, chamadas de Filmes de Estilo Transcendental, nos quais podemos perfilar cineastas como Bresson, Dreyer, e Rosselini, o que se tem não é a representação visual do transcendente, mas a busca de captar a sua essência pela fotografia, pela cadência do tempo da duração das imagens, pelo enquadramento que deixa entrar pela lente da câmera o mundo, e aquilo que nele não é perceptível: a imanência do transcendente, bastante próximo de uma perspectiva baziniana.

Na mesa serão abordados estes três aspectos da manifestação e configuração do transcendental, o da construção da visibilidade da irrupção do sagrado (hierofania), o da elaboração de um espaço transcendental calcado no imaginário religioso relativamente ao Inferno, e a sutileza do transcendente configurado na imanência nos filmes de estilo transcendental.

Bibliografia

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