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  Título
Miséria e solidariedade em "Borinage": estudos de Sociologia e Cinema
Autor
Mauro Luiz Rovai
Resumo Expandido
A proposta desta apresentação na mesa temática pré-constituída “Cinema e Ciências Sociais: Misère au Borinage” é discutir, conforme a ementa que a justifica, as relações entre cinema e produção de conhecimento nas Ciências Sociais, em particular na Sociologia, de modo a destacar os problemas de fundo epistemológicos e os cuidados metodológicos concernentes ao uso do filme como material privilegiado de estudo.

Misère au Borinage é dirigido pelo ator e cineasta belga Henri Storck (1907 – 1999) e pelo cineasta holandês Joris Ivens (1898 – 1989). Realizado em 1934, com 34 minutos de duração, o filme, feito durante a Greve dos mineiros de Borinage (na região da Valônia, sul da Bélgica), entre os meses de julho a setembro de 1932, traz à tona aspectos fundamentais para a discussão sociológica ao menos por três razões. A primeira, mais geral, por permitir abordar as relações sociais sob o capitalismo (ou, como diz o filme, a miséria e o desemprego em um momento de forte crise do capitalismo, ligando os mineiros da região aos acontecimentos em outras partes do mundo, como sugerem as imagens da greve na Pensilvânia). A segunda, por permitir discutir o modo como aparecem na tela os enfrentamentos no mundo do trabalho, que, no filme, aparece sob uma perspectiva teórica abertamente “marxista”, seja pela presença da figura de Karl Marx, seja pela saudação à “ditadura do proletariado”. A terceira razão, mais específica, por possibilitar explorar como aparece construída, no filme, a idéia de miséria dos trabalhadores e a da indignação decorrente da situação em que vivem por meio da contraposição de quadros nos quais elementos contraditórios são aproximados: fábricas fechadas / trabalhadores famintos; racionalização do trabalho e falta de segurança do trabalhador; crianças passando frio e fome / uma casa abrigando os tijolos que construirão uma igreja etc. A imagem de Marx, ao lado do martelo e da foice, pintada em um cartaz que puxa uma passeata em homenagem aos 50 anos de sua morte, bem como a de Lênin, que aparece em dois momentos do filme (é também com essa imagem que o filme se encerra) são ingredientes a mais para tornar a obra de Storck e Ivens um interessante entreato para um debate que envolve Sociologia e Cinema.

Dada a dinâmica da mesa, esta intervenção abordará os seguintes ângulos. O primeiro refere-se aos aspectos formativos da obra, como a diferença entre os planos filmados no exterior e no interior dos alojamentos em que vivem as famílias dos desempregados, os letreiros em tela escura que informa o espectador acerca da trama do filme, e o uso de primeiros-planos. O segundo diz respeito ao momento social e político da realização do filme (entre a crise de 1929 e a primeira metade dos anos 30), destacando, a partir do registro proposto por Paulo Virilio, a câmera como “arma” de guerra.

Tais aproximações ao filme de Ivens e Storck não devem ser vistas, entretanto, como decorrência da força ilustrativa da obra que mostra os fatos ocorridos no período e a sucessão de acontecimentos durante a greve contra a miséria e o desemprego em Borinage. A preocupação, antes, é abordar as articulações ocorridas no filme, isto é, seus aspectos formativos, evidenciando os modos pelos quais se estabelecem as relações entre cinema e sociedade. Certamente cada pesquisador, nas ciências sociais, confere ao mundo um sentido a partir dos recortes que dele faz. Entretanto, ao assim proceder, ele deve estar ciente de que não existe, como apontava Weber, algo valioso e digno “em si mesmo” de ser investigado, o sentido próprio ou único das coisas. Em vista disso, o pesquisador, ante o filme, se expõe ao risco de sustentar as conexões que estabelece. Conexões estas que são significativas a partir dos recortes operados. A perspectiva é que ao chegar ao final dos debates os blocos significativos ressaltados por esta apresentação apontem não apenas pontos comuns com as outras interpretações, mas, sobretudo, distanciamentos, dissensos e desacordos com elas.

Bibliografia

AUMONT, Jacques. Du visage au cinéma. Paris: Éditions de L’etoile – Cahiers du cinéma, 1992.

COURTINE, Jean-Jacques & HAROCHE, Claudine. Histoire du visage. Paris: Éditions Rivages, Petite Bibliothèque Payot, 1988.

DELEUZE, Gilles. A imagem-afecção: rosto e primeiro plano. In A Imagem-Movimento. Cinema I. Trad. Stella Senra. São Paulo: Brasiliense, 1985, pp. 114-131.

SIMMEL, Georg. Simmel on Culture. Selected writings. Edited by David Frisby and Mike Featherstone. New York: Sage Publications, 2000.

SORLIN, Pierre. Esthétiques de L’audiovisuel. Paris: Nathan Université, 1992.

VIRILIO, Paul. A Arte do Motor. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.

______ . Guerra e Cinema. Trad. Paulo R. Pires. São Paulo: Scritta, 1993.

WEBER, Max. A 'objetividade' do conhecimento nas Ciências Sociais. In: Coleção Grandes Cientistas Sociais: Max Weber. V.13. São Paulo: Ática, 1986, pp. 79 – 127.

Filmografia

Joris IVENS e Henri STORCK. Misère au Borinage. Bélgica, 1934, 34 min., P&B, versão não sonorizada.