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  Título
Roger Munier: a paralisia da razão e o silêncio da consciência
Autor
Julio Bezerra
Resumo Expandido
Filósofo de formação, ex-aluno e um dos primeiros tradutores de Martin Heidegger para o francês, Roger Munier é uma espécie de momento perdido nos anais internacionais da teoria cinematográfica. Mesmo em seu país de origem, a França, ele ainda é pouco discutido ou citado – embora um cineasta do tamanho de Raul Ruiz já tenha dito que em sua juventude no Chile, os ensaios de Munier “traziam à tona uma tempestade de declarações, contra-declarações, e reprimendas, suficiente para encher dezenas de volumes" (Ruiz, 1995: 32). Em um diálogo com Andre Bazin e Jean Epstein, sempre tendo como base a ontologia hermenêutica de Heidegger, Munier voltaria sua atenção para o que chama de “imagem objetiva”. Para Munier, uma fotografia e um filme são compostos por imagens de outra ordem, única na história da arte, que ultrapassa aquilo que elas ajudam a narrar e anunciam um mundo pré-lógico que domina e controla a nossa imaginação.



O que Munier estabelece ao longo de seus ensaios é um ideal, um projeto, o potencial da imagem objetiva. O que Munier investiga sob o nome de “imagem objetiva” é uma imagem que produz um objeto em uma proporção de destituição do ser humano. Este último seria apenas um momento no processo dialético de confecção de uma imagem objetiva, já que esta só depende do homem no ato de seu registro. Ela não o pertence, exclui o homem ao invés de convocá-lo. Para o filósofo, é como se nós não tirássemos fotos do mundo, é este que se fotografa por nosso intermédio. O que nos resta é um sentimento puro e imóvel. Para Munier, esse é o verdadeiro significado da palavra "fascinado": uma paralisia total do poder reflexivo. “Cheio até a borda, mas ao mesmo tempo inerte. Inerte no mesmo grau que ele está cheio até a borda, sem qualquer reação diante deste mundo fascinante, proferido em si e para si, indiferentemente” (Munier, 1962: 88). A fotografia e o cinema romperiam a centralidade do homem e nos deixaria impotentes face à influência poderosa do mundo.



No cinema, é este sentido imanente que se revela e se esconde ao mesmo tempo. O foco de Munier recai sobre as possibilidades ou impossibilidades de um discurso intervir naquilo que se desenrola na tela. Para Munier, os filmes são incapazes, por sua própria natureza, de tal intervenção. Eles se impõem sem sermos capazes de exercer qualquer apreensão mais racional, sem a possibilidade de qualquer relação dialética entre as coisas na tela e nós. “Tudo isso leva em direção ao silêncio, onde a única palavra pronunciada seria a do mundo, mudo, sem precedentes, inaudível. Inaudível porque o que é dito aqui não vai além dos limites estreitos do mundo” (Munier, 1962: 88). As realidades do mundo, a coisificação de seus objetos ou a existência de suas ações, não se revelam quando são capturados e projetados em uma tela para nós. Para Munier esses objetos e ações calam-se, fecham-se em si mesmos, se auto-manifestam. Eles já não necessitam de nossa mediação ou interpretação como espectadores. O mundo da imagem objetiva não se constitui “para nós”, somos, ao contrário, colocados à sua mercê.



Munier vem à tona quando nos deparamos com um cineasta como Hou Hsiao-Hsien. A mesma paralisia da razão ou silêncio da consciência, se faz sentir, por exemplo, logo no primeiro plano de um filme como “Millenium Mambo” (2001). A nossa ideia é fazer estar ponte com um certo cinema contemporâneo, enfatizando o que se exala (apesar da ingenuidade e de alguns problemas que pontuam a obra do filósofo) nas entrelinhas dos ensaios de Munier: a noção de que um filme já descreve meticulosamente, antes do espectador ou do crítico se debruçar sobre ele, todos os tipos de coisas. O mundo, os espaços, os objetos, os corpos, os comportamentos, a atmosfera, o ritmo. Quer dizer, um filme não apenas registra algo anterior a ele, não se referencia simplesmente a algo anterior a ele, mas delineia e anima, representa e narra, figura e põe em movimento, ao mesmo tempo.



Bibliografia

MUNIER, Roger. Contre l’image. Paris: Gallimard, 1989.

_______________. "Le Chant second" em Revue d'Esthétique, tome XX, 1967.

_______________. “The Fascinating Image” em Diogenes, n° 38, 1962. Disponível Online: http://dio.sagepub.com/content/10/38/85.full.pdf

RUIZ, Raúl. Poetics of cinema 1: Miscellanies. Paris, Dis Voir, 1995.