/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Entre teatro e cinema: o Modernismo brasileiro na década de 1980
Autor
Elizabeth Maria Mendonça Real
Resumo Expandido
Neste trabalho serão abordados dois longas-metragens brasileiros realizados na década de 1980 e que retomam o universo artístico do Modernismo brasileiro: O rei da vela, de José Celso Martinez Corrêa e Noilton Nunes (1983), e Exu-piá, coração de Macunaíma, de Paulo Veríssimo (1984). Os filmes são baseados fundamentalmente em duas fontes: a obra dos escritores modernistas Oswald de Andrade e Mário de Andrade, respectivamente, e encenações desses trabalhos consideradas como marcos para a história do teatro brasileiro.

Além de se valerem de trechos das filmagens dos espetáculos, os diretores assumem, em certos momentos, uma proposta mais aberta que aproxima os filmes da performance, com os atores inseridos nas ruas, fora dos estúdios ou do palco. Às cenas teatrais e performáticas, juntam-se diversos tipos de imagens, como cenas documentais, fotografias, pinturas, programas de TV, reunidas por uma montagem ágil que ressalta o caráter fragmentado dos filmes, situados na fronteira entre o cinema (como meio expressivo capaz de absorver materiais diversificados) e o teatro.

Esta fragmentação acaba por estilhaçar o eixo dramático tanto do livro quanto da peça, fazendo incorporarem-se à cena cinematográfica elementos advindos de variados tipos de arte, seja o teatro, a performance, a literatura ou a música. Nesse sentido, tem importância fundamental a montagem como procedimento brechtiano de distanciamento, produção de choques que provocam o espectador, impedindo o processo de identificação buscado no cinema convencional.

As filmagens de O rei da vela iniciaram-se em 1971, quando a peça foi remontada, mas o filme só foi finalizado na década de 1980. O filme se constrói a partir de materiais diversos, entremeados com a encenação da peça no palco e em exteriores. Fazendo referência à “revolução”, à repressão política, às greves, ao próprio cinema e ao papel do artista e do intelectual, provoca o espectador, suscitando-o a estabelecer relações entre o momento em que vive e o passado não tão remoto. Nessa variada colagem, juntam-se personagens históricos e elementos formadores da cultura brasileira, além de referências críticas a multinacionais.

Exu-piá, coração de Macunaíma baseia-se livremente na obra mais conhecida de Mário de Andrade - Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Dialoga não só com o livro de Mário, mas também com a antológica peça montada pelo diretor Antunes Filho e o Grupo Pau-Brasil, em 1978. O filme é entremeado por cenas da peça que pontuam momentos-chave da história. Soma-se outra referência fundamental: o desfile da escola de samba Unidos da Tijuca, cujo enredo baseou-se em uma obra ficcional de Manuel Cavalcanti Proença. Realizando um filme extremamente fragmentado e heterogêneo, Veríssimo justapõe elementos ligados à cultura de massa, como programas de rádio, comerciais e desenhos animados de TV; incorpora cenas documentais, videoclipes e improvisações na rua.

A filmagem de espetáculos teatrais marcantes, como foram O rei da vela e Macunaíma, é indicativa de uma intenção explícita de “registro” de momentos cruciais para a cultura brasileira. No entanto, essa forma de registro, na qual se incorpora uma multiplicidade de outros materiais, fragmentando a estrutura narrativa da peça, não se propõe a recompor integralmente na tela o espetáculo. Trata-se, antes, de um diálogo que se trava não apenas com as obras adaptadas – escritas nas décadas de 1920 e 1930 -, mas também com as montagens realizadas em um período posterior nas décadas de 1960 e 1970.

Assim, este trabalho tem dois eixos de investigação: um que procura perceber a forma como os filmes foram construídos no entrelaçamento de diferentes linguagens, em especial entre cinema e teatro. Outro ponto de interesse é o diálogo entre o momento em que os filmes foram feitos, período de transição da sociedade brasileira, marcado pela redemocratização, e ideias predominantes no Modernismo, mediadas pela releitura deste realizada pelos grupos Oficina e Pau-Brasil.

Bibliografia

ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. São Paulo: Editora Globo, 1990.

ÁVILA, Afonso. (Org). O modernismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002. 2ª edição. Coleção Stylus. Dirigida por J. Guinsburg.

BADER, Wolfgang. Brecht no Brasil. Experiências e influências. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Macunaíma. Da literatura ao cinema. Rio de Janeiro: J. Olympio: Empresa Brasileira de Filmes, 1978.

MORAES, Eduardo Jardim de. A brasilidade modernista. Sua dimensão filosófica. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1978.

RIDENTI, Marcelo. Brasilidade revolucionária. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

RUFFINELLI, Jorge; ROCHA, João Cezar de Castro. (Org). Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em cena. São Paulo: Realizações Editora, Livraria e Distribuidora Ltda, 2011.

SILVA, Armando Sérgio da. Oficina. Do teatro ao te-ato.São Paulo: Perspectiva, 2008. Col.Debates 175.