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  Título
Filmes de Estrada do Brasil e suas Linhas de Coerência Discursivas
Autor
Samuel Paiva
Resumo Expandido
Os questionamentos postos nesta comunicação se inscrevem no âmbito dos gêneros cinematográficos, procurando compreendê-los com suas definições, funções e contextos, tendo em vista os filmes de estrada, problematizados, contudo, a partir de sentidos culturais específicos revelados na produção brasileira. Considerada tal perspectiva, algumas perguntas se colocam, tais como: qual ou quais seriam os contextos favoráveis à compreensão do filme de estrada no Brasil? Em que medida os filmes de estrada realizados neste país poderiam constituir uma referência para a compreensão do gênero road movie em uma perspectiva transnacional? Qual ou quais seriam os contextos ou recortes oportunos à construção de tal objeto?



Como hipótese de resposta, é possível pensar que a produção ficcional brasileira de filmes de estrada, por um lado, reitera algumas matrizes associadas ao gênero road movie em contextos diversos mas, por outro, apresenta características próprias relacionadas a aspectos históricos, sociopolíticos e econômicos do Brasil. Nesse sentido, um objetivo primordial dessa pesquisa sobre filmes de estrada brasileiros é, considerando um recorte de vinte anos (1960-1980), reconhecer suas “linhas de coerência” (no sentido que propõe Jean-Claude Bernardet em seu livro Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro: Metodologia e Pedagogia).



A rigor, a noção de linhas de coerência foi cogitada pela primeira vez por Cacá Diegues, criticando a visão de história do cinema brasileiro pautada por ciclos verticalizados, propondo, em vez disso, o trabalho sobre “filões” (apud BERNARDET: 1995) que possam ser desenvolvidos horizontalmente a partir de recortes diversos. Mas Bernardet amplia essa ideia ao problematizá-la em relação a uma série de questões implicadas na metodologia de estudos históricos sobre cinema no Brasil.



Seguindo no âmbito de tais questões, vale esclarecer em relação ao recorte temporal aqui proposto (1960-1980) que ele está relacionado, em seu ponto inicial, à superação do cinema de estúdio que caracterizou a produção das décadas anteriores, se constituindo como um momento no qual a produção de cinema (com experiências do Cinema Novo, Cinema Marginal, entre outras) sai em busca de locações. Já o ponto final do recorte considera "Bye, Bye Brasil" (Cacá Diegues, 1979) como um filme que põe em questão a ascensão da cultura de massa no país, ao mesmo tempo em que revisa perspectivas ideológicas dadas até então sobretudo pelo Cinema Novo. Além disso, toma também como parâmetro o ano (1980) de liberação pela censura no Brasil do filme "Iracema, uma Transa Amazônica" (Orlando Senna, Jorge Bodanzky, 1974), obra marcante em termos de uma crítica ao “milagre econômico brasileiro” empreendido pela ditadura militar.



Além desses filmes, o corpus inclui outros títulos, cuja análise está embasada em uma metodologia que prevê a utilização de instrumentos “documentais" e “descritivos” (tal como propõem Jacques Aumont e Michel Marie em seu livro L'Analyse des Films), a observação de suas formas "externa" e "interna" (nos termos de Edward Buscombe em seu estudo sobre "a ideia de gênero no cinema americano") e, no cotejo das obras, a formulação das referidas “linhas de coerência” segundo Bernardet, mas também considerando perspectivas de estudos de gêneros, no caso, voltados à sua compreensão na perspectiva de práticas discursivas, como é o caso de Mittell (2001).



Em suma, é a partir dessas referências que se propõe uma conceituação dos gêneros audiovisuais como “linhas de coerência discursivas”. Estas, voltadas ao estudo dos filmes de estrada no Brasil, indicam possibilidades tais como: discursos híbridos instaurados entre a ficção e o documentário; emergência de uma cultura das minorias que resiste à hegemonia patriarcal no contexto da ditadura militar; assunção de uma cultura pop capaz de perpassar distintas formas de mídia; dialética do trabalho e da malandragem no enfrentamento de um projeto de modernização nacional conservador.

Bibliografia

AUMONT, J.; MARIE, M. L’analyse des films. Paris: Nathan, 1989.



BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro: metodologia e pedagogia. São Paulo: Annablume, 1995.



BUSCOMBE, E. A idéia de gênero no cinema americano. In. RAMOS, F. (org.). Teoria contemporânea do cinema: documentário e narratividade ficcional, vol. 2. São Paulo: Senac, 2005, p. 303-318.



LADERMAN, D. Driving visions: exploring the road movie. Texas: University of Texas Press, 2002.



MITTELL, J. A cultural approach to television genre theory. Cinema Journal, v. 40, nº 3, spring, 2001.