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  Título
GÊNERO E METAGÊNERO: O CASO DE HOLY MOTORS.
Autor
Bernadette Lyra
Resumo Expandido
A noção de gênero se sustenta como uma das questões de maior relevância da teoria e da história do cinema. Tendo em vista que a investigação e prospecção da história da própria instituição cinematográfica permite entendê-la como algo que, em um dado período e sob determinadas condições e exigências, se pensou como um " cinema de gênero", pode-se afirmar que esse tipo entendimento acolhe teoricamente o fato de que foi esse "cinema de gênero", historicamente determinado, que se tornou capaz de facilitar e induzir o surgimento e a implantação daquelas repartições genéricas que os estudos textuais acreditavam ser uma ocorrência sistemática, repetitiva e motivadora da dupla "repetir e inovar", que modelou os gêneros no início do cinema. Nesse sentido, o gênero deixa de ser um instrumento de classificação e agrupamento para se apresentar estritamente solidário com certos sistemas de produção e difusão de filmes, sendo, ao mesmo tempo, um produto teórico desses mesmos sistemas (como diz João Mário Grilo, vd Bibliografia). Assim considerada, a noção de gênero abre mão de uma catalogação de imobilidade estrutural e passa a ser submetida a mutações, revisões e adaptações sucessivas. Isso acontece à medida que a instituição cinematográfica como um todo vai se conformando técnica e tecnologicamente ao longo dos contratos regionais e globais que regem a cultura audiovisual de hoje. Cabe, então, conceber e experenciar outros instrumentos de investigação que expandam, harmonizem e deem conta do atual horizonte genérico. É o que se pretende, aqui, com a introdução do conceito de metagênero. Com o objetivo de discutir, debater e clarificar esse que pode ser um aparato conceitual a serviço de filmes genericamente "ïnclassificáveis" que, cada vez mais, se acumulam no universo da produção cinematográfica e audiovisual, busca-se analisar o filme "Holy Motors"(2012), de Leos Carax. Não se enquadrando no modelo de metalinguagem, por não mostrar câmeras de filmagem ou procedimentos de filmagem, "Holy Motors" opera em um outro segmento de metacinema, já pressentido desde a sua primeira cena, passada em uma sala de projeção repleta de espectadores. Desse modo, "Holy Motors" joga com uma esfera de multiplicidade de representações, histórias e mise en scènes reconhecidas, um dèja-vu fragmentado que ultrapassa a simples mistura dos muitos gêneros pelos quais o filme transita; ficção científica, melodrama, horror, erotismo, musical e outros. Todos costurados pelo ato de iniciar e reiniciar o motor da máquina de filmar, aqui metaforizado, imagizado e corporificado pela limusine em que se refugiam as múltiplas personificações de apenas um ator, que percorre as ruas de Paris tal qual um fantasma saído de produções passadas e que vai sendo conduzido por uma personagem quase diáfana posta na direção do veículo. Enfim, um filme que diz respeito à memória da máquina, à memória do cinema enquanto motor, esbatendo os vínculos existentes entre a produção da indústria cinematográfica e a arte de maquinizar a representação através de sons e imagens. É justamente na brecha que se abre diante das análises de "Holy Motors" , que estamos propondo o conceito de "metagênero", na esperança de contribuir para com as investigações, análises e interesses que se agrupam em torno desse tipo de filmes cada vez mais ocorrentes no vórtice do cinema contemporâneo.



Bibliografia

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BUSCOMBE, Edward. “A idéia de gênero no cinema americano”. In: RAMOS, Fernão Pessoa (org.). Teoria contemporânea do cinema, Vol. II. São Paulo: SENAC, 2004.



GRANT, Barry Keith (org.). Film genre reader III. Texas: University of Texas Press, 2003.



GRILO, João Mário. A ordem no cinema; vozes e palavras de ordem no estabelecimento do cinema em Hollywood. Lisboa, Relógio d`Água, 1997.



KERMABON, Jacques." Les théories du cinéma aujourd`hui". CinémAction. Paris, CerfCorlet, 1988.



MOINE, Raphaëlle. Les genres du cinema. Paris: Nathan, 2002.



NEALE, Steve. Genre and Hollywood. Londres: Routledge, 2000.



PINEL, Vincent. Genres et mouvements au cinema. Paris: Larousse, 2006.