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  Título
Abbas Kiarostami: um narrador benjaminiano?
Autor
Joana Paranhos Negri Ferreira
Resumo Expandido
Classificar Kiarostami como um “narrador” pode soar um tanto contraditório, dada a aversão declarada do próprio a “contar histórias" (entenda-se, aqui, a crítica do iraniano ao modelo hollywoodiano). Mas analisado mais de perto, em sua recusa a narrar, Kiarostami acaba por aproximar-se, em muitos aspectos, à figura do narrador que Walter Benjamin enunciava estar em vias de extinção, em seu célebre ensaio.

O primeiro indício da morte da narrativa, para o filósofo, é o surgimento do romance. Fundamentalmente, porque ele nem provém da tradição oral nem a alimenta, estando essencialmente vinculado ao livro. Enquanto o narrador promove uma troca de experiências, o romancista é o indivíduo segregado que não as comunga. É possível encontrarmos no cinema e sua matéria-prima, a imagem (no lugar da palavra oral), uma espécie de perpetuador de histórias. Assistir a um filme, na definição do senso comum, equivale a acompanhar uma história e poder também contá-la para quem não viu. Assumimos, então, o papel de um espectador-narrador e a experiência do cinema se torna transmissível, por ser uma linguagem compartilhada pela sociedade contemporânea. Mas como o cinema tem contado suas histórias, desde a consolidação de seu modelo narrativo? E como nós as temos contado uns aos outros?

Através do dispositivo da sala escura, o cinema não confere direito de resposta ao espectador (o que esta cena quis dizer? o que aconteceu?). Sob esta perspectiva, para muitos, um bom filme é aquele que não deixa lacunas e que se presta a uma clareza narrativa e ótica. A ideia de um mundo coeso, o esquema sensório-motor de ação e reação do cinema clássico, a lógica narrativa que tanto conhecemos (dotada de personagens, conflitos demarcados e desfecho definido) ancoram o espectador e prevalecem nos grandes circuitos. O público é entretido em um ritual, de aproximadamente duas horas, em que o écran trata de ordenar e dar sentido às incertezas do mundo em volta. Estas incertezas são nutridas de garantias e sobretudo, de informação.

Eis o principal ponto de contato entre a figura do narrador benjaminiano e Kiarostami. Enquanto no cinema de entretenimento o espectador é sobreinformado, o cineasta iraniano, como já observado por Jean-Claude Bernadet, o deixa subinformado através de narrativas ambíguas e parcimoniosas. No primeiro, não há lacunas deixadas, nada de finais abertos. Se por um momento há dúvida, ela existe somente como fator de tensão para uma resolução que não tardará a chegar. Para Benjamin, a informação é algo plausível que ao buscar explicar um acontecimento é incompatível com o espírito da narrativa cuja profusão de significados se abre à experiência do ouvinte. Gagnebin já havia observado que o leitor atento de Benjamin descobriria, em seu texto, uma teoria antecipada da obra aberta de Eco, conceito que podemos facilmente relacionar a obra de Kiarostami, ao convocar constantamente o espectador a coautoria, o que aponta para uma outra postura espectatorial.

Assim, nos perguntamos, ao final de Gosto de cereja: o que terá acontecido ao senhor Badii? Terá se suicidado ou cedido ao “gosto da cereja” que o velho senhor lhe relata no carro? E o protagonista de Vida e nada mais? Terá encontrado os meninos que buscava? Mas Kiarostami, tal qual o narrador benjaminiano, não responde a perguntas, apenas “sugere a continuação de uma história". O poder de desdobramento de seus filmes reside na estrutura polissêmica de suas narrativas que permite que cada espectador tenha uma experiência diversa e possa interpretá-los da forma que quiser. É quando a obra se torna vaga e inconclusiva que o espectador estabelece uma relação mais íntima com ela e recorre ao seu repertório de vida e sua imaginação para reduzir seu grau de ambiguidade. Identificamos, deste modo, um ciclo de trocas, um “intercâmbio de experiências” entre o diretor (cujos filmes escolhidos para análise são fruto de suas experiências pessoais), os personagens e o público.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In:

Obras escolhidas. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985b. p.197-221.

BERNARDET, Jean-Claude. Caminhos de Kiarostami. São Paulo: Companhia das

Letras, 2004.

BORDWELL, David.. O cinema clássico hollywoodiano: normas e princípios

narrativos. In: Fernão Pessoa Ramos. Teoria Contemporânea do Cinema, Volume II.

São Paulo: Senac, 2005. p. 285.

DELEUZE, Gilles.Carta a Serge Daney: Otimismo, pessimismo e viagem. In:DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992a.

ECO, Umberto. Obra Aberta. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971.

GAGNEBIN, J. M. (1986). Walter Benjamin ou a história aberta. In: BENJAMIN,

Walter. Obras Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2ª edição, pp. 7-19.

KIAROSTAMI, Abbas. Duas ou três coisas que sei de mim. In: Abbas Kiarostami. São

Paulo: Cosac Naify, 2004. p.175-28