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  Título
A Lógica da Composição Estilística e Narrativa de Avenida Brasil
Autor
Renato Luiz Pucci Junior
Resumo Expandido
A telenovela Avenida Brasil (Globo, 2012) impactou a ficção televisiva brasileira tanto em termos de crítica quanto de recepção. Dois fatores a considerar em relação a esse processo são as inovações estilísticas e narrativas. Ao invés de apenas replicar recursos bem sucedidos na televisão, a experimentação permitiu que proliferassem cenas diferenciadas, mesmo ao acelerado ritmo de produção e exibição de um capítulo por dia. Com isso, cenas diversas, em especial nos conflitos entre as protagonistas Rita e Carminha, mas também entre outros personagens, apresentaram uma construção audiovisual que não tem paralelo em realizações tradicionais da telenovela brasileira. Composições que em outros tempos seriam consideradas poluídas ou confusas, destinadas a comprometer a recepção e que, portanto, seriam excluídas do produto final, resultaram em uma expressividade que, longe de rebaixar os índices de audiência, provavelmente contribuíram para a sua elevação. Em especial no que concerne a enquadramentos, iluminação e edição, alguns recursos resultam de trocas com o cinema, intercâmbio que, embora remonte no plano internacional às origens da televisão, com acentuado incremento a partir dos anos sessenta (Bordwell, 2006), no âmbito nacional se intensificou apenas há cerca de duas décadas. Um consistente processo de construção audiovisual, concretizado numa espécie de modulação e conectado a elementos narrativos muito específicos, contrariou normas daquilo que, devido ao sucesso obtido ao longo de décadas, parte da crítica acadêmica tem considerado definitivo e inabalável no padrão televisivo que Kristin Thompson (2003) chamou de classic television. Levando-se em conta que, segundo a conceituação proposta por Arlindo Machado (2001), telenovelas são um tipo particular de série, Avenida Brasil é mais um exemplo daquilo que Jean-Pierre Esquenazi (2010) avaliou com as seguintes palavras: o rigor de relojoeiro das séries televisivas é a fonte de sua criatividade. Sem abrir mão de reiterações, ganchos, comic reliefs e outros recursos habituais das telenovelas, foram inseridos elementos nada usuais, sem dúvida por conta da inventividade da dupla de diretores, Amora Mautner e José Luiz Villamarim, e sua equipe. No sentido em que “esquemas” são definidos pelo cognitivismo (Hogan, 2003), pode-se dizer que os esquemas estilísticos e narrativos incorporados sinalizam o processo por que tem passado a ficção televisiva não apenas no Brasil, como também em vários países, desde o final da última década do século passado, com séries e seriados a merecer atenção da crítica, tal como Jason Mittell, entre outros, tem constatado (2012). Por meio do instrumental da análise audiovisual e da metodologia comparativa, pretende-se mostrar a lógica de composição que permitiu aos realizadores de Avenida Brasil chegar a um produto que, em conjunto com outras produções ficcionais inovadoras ou de ruptura (Pucci Jr., 2012), possivelmente resultará em que padrões adotados na ficção televisiva brasileira se modifiquem de modo nada desprezível.
Bibliografia

BORDWELL, D. (2006). The Way Hollywood Tells It. Berkeley, Los Angeles e Londres: University of California Press.

ESQUENAZI, J.-P. (2010). Les séries televisées: l’avenir du cinema? Paris: Armand Colin.

HOGAN, P. C. (S/d.). Cognitive Science, Literature, and the Arts: a Guide for Humanists. S.l.: Kindle Ed. (edição original: Nova York e Londres: Routledge, 2003).

MACHADO, A. (2001). A Narrativa Seriada. In: A Televisão Levada a Sério. 2.ª ed. São Paulo: SENAC, p. 83-97.

MITTELL, J. (2012). Complexidade Narrativa na Televisão Americana Contemporânea. MATRIZes, ano 5, n.° 2, jan/jun, São Paulo: ECA/USP, p. 29-52.

PUCCI JR., R. L. (2012). Adaptação Televisiva e Esquemas Cognitivos: o caso de Capitu. In: Pucci Jr., R.; Borges, G.; Sobrinho, G. Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e Documentário. Disponível em http://www.socine.org.br/livro/televisao/#/4/ Acesso em 30 mar 2013. p. 29-43.

THOMPSON, K. (2003). Storytelling in film and television. Cambridge e Londres: Harvard Univ. Press.