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  Título
Quando o comentário autoral programa os modos de leitura fílmica
Autor
mahomed bamba
Resumo Expandido
“Quem fala?” “De onde fala?” “Com quem fala?”. Estas perguntas aparentemente anódinas, antes de servirem de balizas para uma análise fílmica, são as que qualquer espectador se faz a si mesmo diante de um filme em que é interpelado por um comentário extradiegético. Ao mesmo tempo em que um filme se dá a ver, ele se faz ouvir. De todas as figuras que manifestam uma forma de subjetividade na representação cinematográfica, a voz e as falas atribuídas a um locutor situado fora da narrativa são, sem dúvida, aquelas que produzem o maior efeito de interpelação com relação ao espectador. O próprio filme, diz Casetti, força “os olhares e as vozes que o habitam” a irem além da narrativa, isto é, a mirarem o fora do quadro e o espectador, este sujeito cuja presença-ausência se infere do material audiovisual. (CASETTI, 1990, p.24).



Dependendo das opções narrativas e estratégias poéticas, o próprio autor/diretor pode assumir e afirmar, desde o início do filme, a partir de uma posição extradiegética, toda a responsabilidade com o discurso. Porém, não basta que o sujeito autor do filme se dê na figura de uma voz encarnada na imagem de um personagem/persona. Do ponto de vista da recepção fílmica, os comentários em voz over ou restritos ao espaço paratextual podem ser atribuídos a uma instância de enunciação considerada como sendo o autor ou produtor “real” da obra. Neste caso, o trabalho de “atribuir” a autoria ao locutor pressupõe um tipo de competência particular por parte do espectador (os cinéfilos, por exemplo, têm uma maior facilidade para fazer esta correlação em comparação a um espectador ordinário). Ou seja, cabe, em última instância, ao espectador/leitor apreender esta afirmação do “eu” autoral como tal, isto é, atribuindo e reconhecendo-lhe o papel actancial de um enunciador real ou fictício.

Às vezes, esta relação verbal do diretor com sua obra toma as formas de uma “prática oral do cinema”: o autor fala como se ele fosse um espectador do seu próprio filme e o tivesse visto antes dos demais espectadores. "Pixote- A lei do mais fraco" (1981), por exemplo, abre-se com um longo prólogo em que um “eu enunciador real” (o próprio diretor Hector Babenco) dá uma série informações contextuais destinadas a preparar a entrada do espectador na ficção. Em seguida, ele desaparece da ordem da representação. Em "2 ou 3 choses que je sais d’elle" (Godard, 1967), ao contrário, assistimos a uma outra estratégia discursiva em que o enunciador sussurra, do início até o fim, seus comentários que concernem à história narrada, aos personagens que habitam o espaço diegético e ao contexto sócio-cultural figurado no filme. Estas informações são dadas pela voz do próprio Godard (dizer “a voz de Godard” já pressupõe que o espectador reconheça o grão de voz de Godard e seu estilo inconfundível de comentar seus filmes).

Nesta comunicação, interesso-me pelo modo de funcionamento da modalidade do comentário autoral nos dois filmes de ficção supracitados. Enquanto Pixote põe em cena a figura e as falas do diretor, mas restringindo-o no segmento inaugural e nas bordas do filme (criando assim um paratexto ou peritexto com relação à obra), 2 ou 3 choses que je sais d’elle faz ecoar o comentário do autor de forma intermitente e em sobreposição no texto fílmico. Pretendo descrevo nesses dois filmes o modo de funcionamento enunciativo e os efeitos retóricos e pragmáticos do comentário autoral sobre a atividade espectatorial. Examinando também o tipo de pacto e modo de leitura ficcional (ou não ficcional) que estas relações verbais de Babenco e de Godard com suas respectivas obras pressupõem no espaço da recepção.







Bibliografia

BOILAT, Alain. Du bonimenteur à la voix-over: Voix-attraction et voix-narration au cinéma. Lausanne: 2007

BRANIGAN, Edward. Narrative comprehension and film. Londres & NY: Routledge, 1992

CASETTI, Francesco. D´un regard l´autre: le film et son spectateur. Lyon : Presses universitaires, 1990.

ECO, Umberto. Lector in Fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo : Perspectiva, 2008

......................... Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva, 2008

ESQUENAZI, Jean-Pierre & ODIN, Roger (Orgs.). Cinéma et réception. Paris : ed. Hermes Science Publications, 2000.

FISH, Stanley. Quand lire c´est faire: l´autorité des communautés interpretatives. Paris: Les Prairies Ordinaires, 2007

GENETTE, Gérard. Palimpsestes: La littérature au second degré. Paris : Seuil, 1982

LACASSE, Germain et ali. (org.) Pratique Orales du cinéma : textes choisis. Paris : L´Harmanttan, 2011

ODIN, Roger. De la Fiction. Bruxelles : De Boeck Université, 2000