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  Título
Imersão no intervalo: A construção do devir adolescente em Petit indi
Autor
Michael Peixoto
Resumo Expandido
No segundo volume de seus escritos sobre cinema, Gilles Deleuze empreende uma investigação sobre um novo modelo de imagem que ganha relevância no período pós-Segunda Guerra Mundial e que corresponde à descrença na figura heroica e a presença evidente de um sentimento de impotência diante não apenas do grandioso, mas principalmente do prosaico. O cotidiano passa a assumir proporções catastróficas e lança os personagens em estados de suspensão, nos quais a reação física para solução do conflito mostra-se ineficaz. Uma vez que a ação motora não dá conta de resolver os conflitos, os personagens passam a olhar e ouvir de modo distinto, alterando a sua percepção do mundo a partir de processos de visão e audição aguçados, tornando-se, como denomina Deleuze, personagens-videntes.

Não é de hoje que personagens solitários e à deriva, sem objetivos claros e/ou consistentes, protagonizam tramas cinematográficas. Se desde o neorrealismo o retrato do homem comum imerso em sua rotina e em busca da compreensão primordial de seu estado prosaico tornou-se recorrente, o que se percebe na contemporaneidade é, mais do que uma banalização do conflito trivial, a atenção voltada para novos agentes reflexivos que até então estavam associados majoritariamente a outros modelos de construção narrativa – dentre os quais destacamos neste estudo os adolescentes.

Há de se ressaltar que, nos últimos anos, tornou-se cada vez mais frequente a associação do universo adolescente com a introspecção e o isolamento. “Petit indi”, representante desta tendência, aborda a intimidade do adolescente e sua deambulação no intervalo entre a infância e a maturidade. Longe de apresentar conflitos que concedem ao personagem principal certo caráter heroico em uma luta determinada pela superação dos próprios limites, a produção catalã dialoga com uma série de outros filmes contemporâneos por retratar seu protagonista adolescente em um estado de suspensão no qual imperam as incertezas e o acaso substitui o esquema habitual de ação-reação como fio condutor da narrativa.

“Petit indi” acompanha o cotidiano banal de Arnau, um garoto reservado de 16 anos que vive com a irmã nas margens fronteiriças de Barcelona. Com a mãe na prisão e um trabalho ordinário de repositor, suas ocupações são cuidar de um pássaro vencedor de competições de canto e apostar em corridas de cães. Diariamente, Arnau transita errante por vários espaços de sua pequena cidade, sem um objetivo claro ou ponto de chegada determinado. Curiosamente, quando é solicitado a ir a algum lugar, em seguida é mostrado em seu destino final; quando aparece caminhando, não chega a lugar algum – recurso que ressalta a sua errância perambulante e cíclica. Assim, o espaço onde interage não lhe proporciona saídas, quando muito soluções imediatistas de caráter provisório que surgem sem serem, de fato, solicitadas pelo garoto. Desta maneira, como destaca Deleuze, o espaço se esvazia e desconecta, já que perde suas conexões motoras.

Em sua perambulação silenciosa, o adolescente corta o enquadramento amplo e vacio e, se a princípio, parece integrado à paisagem, sua aparição solitária e errante resulta por romper com a estabilidade do cenário, insinuando assim uma subversão do quadro. A perambulação de Arnau é silenciosa, porém apenas no que concerne à escassez da palavra pronunciada pelo mesmo. Se o cinema, desde a consagração do sistema sonoro em fins dos anos 1920, tornou-se assumidamente verbocentrista, “Petit indi” se mostra na contracorrente deste esquema ainda hoje hegemônico. O protagonista, que aparece em quadro na maioria das cenas, assume posturas caladas e utiliza a voz de forma pontual, apenas quando necessária e geralmente em resposta aos estímulos externos, retirando dela o seu uso explicativo-argumentativo. No entanto, se a palavra tem importância restrita, todo o entorno sonoro ao personagem ganha maior relevância, expondo-o a situações sonoras organizadas igualmente por suas percepções sensoriais.

Bibliografia

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CHION, Michel. La audiovisión. Buenos Aires: Paidós, 2008.

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MONTORO, Tânia; PEIXOTO, Michael. Hibridismos e intertextualidades no cinema contemporâneo de temática adolescente. In: “Dossiê História e Cinema”, v.19, n.27 (2012). Disponível em: .

NOMBELLA, Daniela Musicco. El campo vacío. Madrid: Cátedra, 2007.

RODRÍGUEZ, Ángel. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. São Paulo: Senac, 2006.

TEIXEIRA, Inês A. et al. (orgs). A juventude vai ao cinema. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.