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  Título
Montagem testemunho: a presença do arquivo nas filmagens
Autor
Anita Leandro
Resumo Expandido
Embora já assimilado pela historiografia moderna em seu trabalho com fontes orais, o método de associação da fala viva da testemunha a documentos do passado é ainda pouco explorado pelo documentário, onde predominam abordagens mais tradicionais da narrativa histórica, voltadas para a reconstituição totalizante dos acontecimentos e para a afirmação do mito (personagens conhecidos, ações de alcance midiático, grandes feitos). Ao contrário da história oral dos historiadores, que se interessa, justamente, pelo caráter intrinsecamente subjetivo do relato da testemunha, na história filmada dos documentaristas prevalece, muitas vezes, a ambição da objetividade e da diversidade dos pontos de vista, herdada, como sabemos, de um sistema de informação teleológico. A montagem procede, nesses casos, a amostragens cientificistas de falas breves de diferentes pessoas, obtidas através de entrevistas dirigidas e associadas, a posteriori, a documentos históricos, reduzidos, por sua vez, ao papel de “imagens de cobertura”, que é como os arquivos são, geralmente, tratados.

A associação do testemunho vivo e dos arquivos durante as filmagens é um encontro entre passado e presente que acontece dentro do próprio plano. A mise en scène antecipa uma atividade reservada à montagem, criando possibilidades de uma relação direta entre a pessoa filmada e os documentos históricos a ela relacionados. No lugar do sistema clássico da entrevista dirigida, procede-se, por esta via, a uma observação dos efeitos dessa reconciliação do presente com os vestígios do passado. O cineasta não precisa mais fazer perguntas. O documento se encarrega de fazê-lo, ativando a memória da testemunha. É assim que esse procedimento inscreve o testemunho na tradição do cinema direto e do documentário de observação. Em termos estéticos, isso revigora os métodos de registro da palavra no cinema. E a consequência política é a criação, no espaço da filmagem, de condições para o advento de falas inaudíveis ou, até mesmo, impossíveis, como a dos sobreviventes de acontecimentos históricos traumáticos, que vão nos interessar mais de perto.

A título de exemplo, falaremos de filmes recentes, entre eles, Duch, o usineiro do Inferno (2011), de Rithy Panh, face-a-face violento entre documentos relativos ao genocídio cambojano e Duch, o dirigente khmer responsável pela prisão S 21, onde cerca de 17 mil pessoas foram torturadas e, depois, executadas, sob acusação de oposição ao regime comunista. O cineasta dá início, já no set de filmagens, a uma criteriosa atualização de arquivos, criando as condições de possibilidade para uma fala subjetiva do algoz. Ao produzir o cruzamento de fonte oral e de documentos escritos, sonoros e visuais, a mise en scène procede a uma montagem por associação, vertoviana, que religa passado e presente. O carrasco é colocado diante da evidência dos fatos e seu testemunho se constrói a partir do testemunho irrefutável dos arquivos convocados. Essa montagem dentro do plano funciona como um tribunal de exceção, que delega ao próprio espectador o veredicto sobre os crimes da história.

A montagem que torna possível o testemunho vivo do que foi arquivado como mero documento administrativo cria para o documentário histórico um “lugar exterior”, como diria Foucault, um lugar em que a palavra filmada pode escapar aos efeitos tanto do pathos subjetivo do sobrevivente, quanto do logos objetivo do discurso histórico. Entre o relato subjetivo da testemunha e o discurso objetivo do cinema sobre a História, o espectador, pode, enfim, ter acesso a aspectos singulares dos acontecimentos históricos, relevados por um discurso gestado nos silêncios da fala, nas lacunas da memória, na incompletude dos vestígios. Com essa outra abordagem dos arquivos e da montagem pela mise en scène, o espectador torna-se historiador de sua época.

Bibliografia

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