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  Título
Autorrepresentação no cinema documentário brasileiro (2000-2012)
Autor
Maria Beatriz Colucci
Resumo Expandido
A busca por autorrepresentação é uma das referências presentes nos filmes documentários contemporâneos que, de diferentes formas, refletem sobre si ou sobre experiências de seu universo particular. Pretende-se aqui analisar esta produção no Brasil, a partir da análise dos filmes documentários brasileiros produzidos nos últimos treze anos (2000-2012), segundo dados dos relatórios de mercado da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Orientado pelo pressuposto de haver intenção do diretor de representar a si ou a seu mundo próximo ou de dar a voz a outro indivíduo ou grupo que fará sua própria representação, o trabalho de levantamento fílmico resultou num total de 27 filmes: 12 produzidos no Rio de Janeiro, 12 em São Paulo, dois em Pernambuco e um no Rio Grande do Sul.

Ao propor a análise de tais produções audiovisuais pretendemos identificar traços comuns e particularidades, partindo da ideia de que a autorrepresentação pode ser delimitada pela atuação do próprio diretor como personagem, ou como narrador ou enunciador de uma história que remete sempre ao universo de experiências pessoais, memórias afetivas, lembranças e vivências familiares. Pretendemos evidenciar, ainda, a presença de autorrepresentações relacionadas a experiências comunitárias, de classe, raça/etnia, que constroem em nosso imaginário determinadas identidades sociais.

Desde as origens do cinema, o documentário relaciona-se às tentativas de trabalhar nos limites entre documentação da realidade e experimentação da forma. De acordo com Bill Nichols (2005), para compreender a história do documentário, deve-se considerar que o que entendemos hoje por documentário é resultado de diversas pesquisas visando determinar uma história para esse “gênero”. Nas origens do cinema somente havia um interesse em explorar os limites do cinema e descobrir novas possibilidades ainda não experimentadas, e isto foi o que permitiu ao documentário manter-se ao longo do tempo como um gênero ativo (NICHOLS, 2005, p.116-17).

O termo documentário seria então um “conceito vago”, não implicando em um conjunto único de formas, estilos e características. “A imprecisão da definição resulta, em parte, do fato de que definições mudam com o tempo e, em parte, do fato de que, em nenhum momento, uma definição abarca todos filmes que poderíamos considerar documentários” (NICHOLS, 2005, p.48).

Para Fernão Ramos (2008), como também para Nichols, o filme documentário estabelece asserções ou proposições sobre o mundo histórico, sendo então o trabalho de definição do documentário basicamente conceitual. Segundo ele, as asserções do documentário são enunciadas através de estilos diversos, mas há sempre uma voz, ou diferentes vozes que falam do mundo ou falam de si. O modo como essas vozes se articulam nos filmes é pois diferente em cada período. A partir de 1960, no cinema direto e no cinema verdade, o documentário mais autoral passa a enunciar por asserções dialógicas, com argumentos sendo expostos na forma de diálogos. Já no documentário contemporâneo existe uma forte tendência em se trabalhar com a enunciação em primeira pessoa. É o "eu" que fala, e de suas próprias experiências. É exatamente esta tendência que buscaremos analisar nos filmes selecionados.

Ao pensar a temática da autorrepresentação no documentário, considera-se determinante a presença do objeto/tema que se coloca como sujeito em frente à câmera, ou a importância do diretor/autor no discurso do filme, a performance e linguagem subjetiva do indivíduo filmado. Conforme Marques, “novas configurações para o campo documental surgem quando é o próprio realizador que está no centro da cena. A questão deixa de ser como falar do outro e sim como representar a si mesmo. O outro torna-se o eu.” (MARQUES, 2004).

O uso das novas tecnologias trouxe certamente mais possibilidades de autorepresentação. A acessibilidade às mídias digitais é um ponto favorável, resultando numa maior pluralidade na representação dos temas sociais.
Bibliografia

COLUCCI, Maria Beatriz.Violência urbana e documentário brasileiro contemporâneo. SP/Campinas: UNICAMP, 2007 (tese de doutoramento apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Multimeios).



MARQUES, Ana Rosa. "33: entre o diário e a performance". In: Revista AV - Audiovisual. Rio Grande do Sul: UNISINOS, v. 2 n° 3, mai-ago 2004. Disponível em: . Acesso em 20 jan. 2013.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.



RAMOS, Fernão P. Mas afinal, o que é mesmo documentário? São Paulo: Senac/SP, 2008.



RELATÓRIO ANCINE. Agência Nacional de Cinema – ANCINE. Disponível em: . Acesso em 06 nov.2012.