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  Título
A imagem sonora em "Gerry" de Gus van Sant.
Autor
Nelson Pinton Filho
Resumo Expandido
Gerry é o primeiro filme da trilogia da morte que compreende "Elephant" e Last Days. Gerry é singular na trilogia pois não utiliza inserções de paisagens sonoras (os fonogramas autorais da compositora Hildegard Westerkamp) em sua composição. Gerry é um filme árido que evoca a plenitude, a imensidão e a busca exaustiva por uma saída. Conta com dois personagens homônimos que encontram-se perdidos e percorrem incessantemente um território aparentemente sem fim. O diálogo entre eles é escasso e não informa uma construção narrativa determinante. A ausência dos diálogos potencializa a construção e a formação de uma condição “óptico-sonora” pura, sendo assim, a construção sonora tende a reconstruir e cobrir estes grandes "espaços vazios”. Com estas preocupações podemos refletir e questionar pontos de formação do discurso aural em Gerry. Como construir uma imagem sonora que evoque grandes espaços e vazios? Como obter tensões sonoras sem afetar a poética do filme? Como a música de Arvo Pärt foi inserida sem causar uma instabilidade no discurso dos sons? Estas questões precisavam de uma resposta mais técnica, que pudessem aproximar ou esclarecer o processo criativo concebido pelo sound designer Leslie Shatz.



Tendo como meta obter dados e respostas mais específicas, foi preciso conceber uma ferramenta de observação de campo sonoro. O processo consiste em observar a mixagem do filme, extrair suas freqüências (índice de altura musical) e sua intensidade (dinâmica musical) sobre um determinado tempo. Esta ferramenta possibilita uma "escuta-visualizada" dos elementos presentes na banda sonora. Com ela é possivel acompanhar visualmente o estado aural do objeto de estudo e ajuda a comprovar algumas teorias sonoras sobre filmes. Adentramos desta forma no trabalho de “foley” de Andy Malcolm e Goro Koyama (“Footsteps pos production sound inc.”), no “soundscape” e texturas de Shatz e na música de Pärt.

Observamos a legitimação do “contrato-audiovisual”, da presença de um contraponto, onde os sentidos são levados por cognição a compreender informações visuais e sonoras que influenciam-se mutuamente, por contaminação ou projeção. Ao extrair e entender os resultados que esta ferramenta de análise propicia, podemos "olhar" para pontos específicos do discurso sonoro, que ora enfatiza e ora desvia (dissocia) a atenção visual do espectador. Esta analise de ordem acusmática faz parte da pesquisa de doutorado (em andamento) que contempla os filmes da “trilogia da morte” do diretor Gus van Sant.

Bibliografia

Chion, Michel. “Wasted Words.” In: Sound Theory, Sound Practice, por Rick Altman. New York: Routledge, 1992.

LaBelle, Brandon. Acoustic territories: sound culture and everday life. Edited by Library of Congress Cataloguing-in-Publication Data. London, York Road: Continuum International Publishing Group, 2010.

Labrada, Jerónimo. El Sentido del Sonido, La expresión sonora en el medio audiovisual. Barcelona: Alba Editoral, 2009

Mancini, Marc. “The Sound Designer.” In Film Sound, Theory and Practice, edited by Elisabeth Weis and John Belton. New York: Columbia University Press, 1985.

Ondaatje, Michael. The conversations: Walter Murch and the art of editing film. New York: Alfred A. Knopf, 2002.

Schafer, R. Murray. O ouvido pensante. São Paulo, SP: Editora UNESP, 1991.