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  Título
Teletopias da ficção: a periferia como centro
Autor
Rafael Fonseca Drumond
Resumo Expandido
Este trabalho problematiza aspectos da caracterização das periferias nas telenovelas “Avenida Brasil” e “Salve Jorge” (Rede Globo de Televisão). Apesar de algumas aproximações, nota-se uma diferença de registro estético (direção de arte, trilha sonora, iluminação) e dramatúrgico (construção de personagens, encenação de costumes, diretrizes autorais), que, nas tramas em evidência, aponta para diferentes engenharias ficcionais. Nesse caso, a representação das periferias urbanas – a telerrealização do subúrbio – foi dimensionada a partir do contraste entre a mítica da boa cultura popular (“Avenida Brasil”) e a problematização social da violência, do tráfico e dos movimentos armados de pacificação das favelas (“Salve Jorge”). Essa diferença não passou impune aos olhares e à crítica do público televisivo, que, em decorrência de fatores diversos, estabeleceu relações igualmente distintas com as telenovelas em relevo.

A partir de tal circunscrição empírica, sugiro explorar as possibilidades do conceito de "teletopia" – extensionamento das heterotopias de Foucault (2006). Para o pensador francês, as heterotopias são espaços diferentes, lugares outros nos quais o sujeito não se encontra, mas que o referenciam no lugar onde, de fato, ele se situa. Seguindo rastros dessa formulação, entendo as teletopias como espacialidades marcadas pela ambivalência gerada pela fundição de uma instância virtual – a composição imagística que enquadra e edita – e, outra, real – a presença significante dessas imagens e narrativas nas matrizes estruturantes da realidade socialmente compartilhada.

Para operacionalizar o uso do conceito, proponho que as teletopias ficcionais sejam analisadas por três eixos intercruzantes: (1) espacialidade programada – ambiência teletópica vinculada às dinâmicas de instalação ou proposição dos universos ficcionais; (2) espacialidade programável – “ocupação” do espaço ficcional, isto é, redesenho gerado pelos processos de apropriação e ressignificação das narrativas em curso (tanto por telespectadores, quanto por produtores); (3) programadores espaciais – matrizes de modulação sócio-histórica dos territórios de ficcionalidade (CALVINO, 1993), assentadas em percursos geracionais e temporais.

O imbricamento entre as espacialidades programadas e programáveis pode ser lido a partir da dupla natureza do espaço: relação entre fixos e fluxos, ou ainda, entre um sistema de objetos e um sistema de ações (SANTOS, 2008). No caso das teletopias, o sistema de objetos seria constituído, inicialmente, por uma escolha autoral, arbitrária – o bairro fictício do Divino ou o contexto de ocupação militar do Morro do Alemão –; já o sistema de ações seria desencadeado a partir dessa escolha, gerando um fluxo de remodelação ficcional resultante de processos de circulação midiatizada. Por seu turno, os programadores espaciais serão explorados como princípios ou fundamentos que justificam a sobrevivência/resistência das imagens do melodrama - significantes emocionais, herança cultural e referência social que perpassam e ultrapassam todas as espacialidades teleficcionais.

Por fim, destaco questões a serem desenvolvidas, tais como: a globalização hipermídia das telas e a fundição de topografias “reais” e “virtuais”; a tessitura transmediática que entrelaça cinetopias e teletopias, assim como organizações comerciais e grupos sociais; a dialética entre as imagens-mundo e as imagens nacionalistas-populares do melodrama (OROZ, 1992); a alta resolução imagética que reforça a sensação de transparência hiperrealista e que define outro grafismo à experiência teletópica.



Bibliografia

CALVINO, Ítalo. La machine littérature. Paris: Seuil, 1993.

FOCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

HARVEY, David. Condição pós-moderna. Loyola: São Paulo, 2011.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008

OROZ, Silvia. Melodrama: o cinema de lágrimas da América Latina. Rio de Janeiro: Rio Fundo Ed., 1992.

SANTOS, Milton. A Natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2008.

SARLO, Beatriz. Paisagens imaginárias. São Paulo: EDUSP, 2005.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002.

SOUZA, Jessé. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo Horizonte: UFMG, 2012.

WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: Cosac Naify, 2012.