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  Título
Vídeo e televisão independentes no Brasil: introdução à ABMVP
Autor
Gilberto Alexandre Sobrinho
Resumo Expandido
Historicamente, o vídeo surgiu após a televisão e antes das chamadas novas mídias, ao mesmo tempo em que sua história se embaralha com esses meios e com o cinema. A câmera Sony Portapack, lançada em 1965, parece ser mais um ponto de ancoragem didática, que um lugar definidor de uma origem. Entretanto, o seu surgimento, onde se estabelecem como ponto de partida - além da câmera citada - o videoteipe (entre 1952 e 1956) e o videocassete (1970), permitiu práticas independentes e ampliou as possibilidades expressivas da televisão. Essas tecnologias tornaram a imagem eletrônica num fato da cultura do nosso tempo.

O vídeo permite um olhar descentralizado para o campo das representações e das significações, no âmbito da imagem em movimento. São aspectos inerentes ao dispositivo que tornaram possíveis apropriações diferenciadas e relevantes para a produção documentária videográfica brasileira. Os aspectos estéticos, ou seja, os usos descentralizados de uma imagem que é “um estado”, foram potencializados pelos realizadores brasileiros, sejam artistas que se dedicam ao circuito elitista da arte contemporânea, sejam os realizadores que buscam desenvolver narrativas atendendo às demandas da comunicação popular.

Foi durante os anos 1980 que, de fato, o vídeo eclodiu como um novo meio capaz de projetar mudanças no audiovisual no Brasil, com presença na programação da televisão brasileira, conforme testemunha Luiz Fernando Santoro (1989). No entanto, as relações entre produtoras independentes e redes de televisão foram marcadas pela sazonalidade e pela encomenda dos programas. De fato, não havia políticas institucionais que pudessem estabelecer rotinas entre os dois setores. Mesmo assim, testemunhou-se um quadro de novas possibilidades e enxergou-se na produção independente de vídeo novos ares.

Ganham destaque (Mello, 2008; Machado, 1996) nos anos 1980, os coletivos Olhar Eletrônico e TVDO que trabalhavam com os domínios da ficção e do documentário, a partir do código televisivo e buscavam formas não convencionais de desconstrução de lugares estabelecidos. No entanto, a década de 1980 não se limitou a essas experiências. Outros coletivos surgiram a partir das possibilidades descentralizadas dos usos da imagem e do som em movimento. Essas práticas despontavam ainda sob o regime militar, no início da década, num momento em que ocorreu amenização das restrições políticas por parte do Estado, e então, intensificaram-se as manifestações de frentes organizadas, ou o que se conheceu como comunicação popular, por meio de jornais, boletins, programas de rádio por alto-falante e também o vídeo. Essas vozes e suas reivindicações unificavam-se sob a expressão movimento popular.

Surgem, assim, demandas de grupos politicamente organizados, manifestos por diversos meios, sendo que o vídeo cumpre um papel relevante e estratégico nos processos de educação, informação, reivindicação, visibilidade, memória e criação junto a esses coletivos. Dentro desse novo vocabulário, define-se, também o vídeo popular (Santoro, 1989).

Nesse período, uma característica da produção do vídeo popular era o seu aspecto atomizado, no Brasil. Em 1984, foram iniciadas as atividades da Associação Brasileira de Vídeo do Movimento Popular com o objetivo de reunir os coletivos e as várias experiências espalhadas pelo país. Ao longo dos anos 1980, a ABVMP organizou encontros, promoveu oficinas e cursos, a comunicação interna e externa, articulou a participação em mostras e festivais, no Brasil e no exterior (Festival Videobrasil e o Festival Internacional do Nuevo Cine Latinoamericano) e também a circulação nos espaços da televisão brasileira (TV Gazeta, por exemplo). Nesta comunicação, pretendo apresentar os princípios norteadores dessa Associação, os principais coletivos engajados na realização nos domínios do documentário que se faziam representar e como se deram as relações entre a produção independente de vídeos populares com a TV aberta no Brasil.
Bibliografia

ALBUQUERQUE, S.M.C. Coletivo Lilith Vídeo: Novas Imagens de Mulher. São Bernardo do Campo, Metodista, 1988

MACHADO, A. Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro. São Paulo: Iluminuras, 2007.

MELLO, C. Extremidades do vídeo. São Paulo: Senac, 2008.

RENOV, M. Resolutions: contemporary vídeo practices. Minneapolis/Londres: University of Minnesota Press, 1997.

RIBEIRO, M. S. TV Viva: A Experiência da TV nas Ruas de Recife e Olinda. São Paulo, PUC, 1999.

SANTORO, L.F. A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil. São Paulo: Summus, 1989.

SANTOTO, L.F. Cine Jornal: O vídeo no Brasil. Rio de Janeiro: Embrafilme, 1986.