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  Título
O cinema como arte do pensamento
Autor
Francisco Elinaldo Teixeira
Resumo Expandido
De Marcel Duchamp a Hugo Münsterberg, de Antonin Artaud a Rudolf Arnheim e os formativistas, inúmeras foram as proposições, desde o período clássico, que tentaram deslocar o cinema de sua domesticação operada pela "conquista da narratividade", do contar histórias nos moldes dos realismos literário e teatral herdados do século anterior.

Conforme as proposições dos formativistas, o cinema não corresponderia a progresso algum em relação à perspectiva artificialis, na medida em que seus implementos técnicos não alteravam em substância sua consistência plana e bidimensional, apenas aprofundando sua ilusão de tridimensionalidade. Ao contrário dos realistas (Bazin, por exemplo)que exaltavam sua maior "impressão de realidade" e automatismo técnico, diferentemente da pintura e em claro progresso em relação a ela.

Artaud, com o mesmo intento de Duchamp e sua proposição do fim da "arte retiniana", foi um dos grandes problematizadores dos usos do cinema com fins narrativos conforme os modelos realistas anteriores, já que sua potência artística era muito mais disruptiva, nova e antirealista por excelência para se acomodar a propósitos já tão saturados e desgastados pelo tempo. Propunha, então, segundo a orientação de que a nova arte era, substancialmente, mais "mental que visual", um "cinema da crueldade" como arte mais próxima das atividades do pensamento, do ato de pensar em seus movimentos e processos.

Ao conquistar o interesse da filosofia deleuzeana, nos anos de 1980, a importância do cinema como grande máquina de visão do século advém, justamente,da síntese que Deleuze opera daquelas proposições iniciais ao arrematar, mais próximo do pensamento artaudiano, que o cinema, além de não se configurar como uma linguagem, o que nos dá a ver é a própria matéria do pensamento, do ato de pensar e seus esforços a partir de uma impotência e não, conforme o modelo cartesiano, de sua onipotência. Máquina de visão, sim, mas com a potência maior de máquina de pensamento, de elevar o cinema ao patamar de uma arte do pensamento. Tal é a síntese deleuzeana, no limiar da cultura pós-moderna, que vem qualificar o cinema como arte de pensar por imagens, tão qualificado quanto a filosofia que pensa por conceitos e a ciência que pensa por funções.

Meu propósito nessa comunicação será o de me adentrar e desenvolver essas sínteses dos períodos clássico e moderno do cinema, na medida em que o pensamento deleuzeano, depois de enormes resistências, tanto aqui quanto lá fora, aos poucos foi adquirindo a envergadura que hoje o coloca entre as maiores reflexões no âmbito da arte cinematográfica.
Bibliografia

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