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  Título
Inovações estéticas na TV: a travessia sertão-Ilhéus de Gabriela
Autor
Simone Maria Rocha
Resumo Expandido
A discussão sobre as transformações que as novas tecnologias têm causado nos modos de produzir, distribuir, exibir e consumir as narrativas televisivas tem se tornado preocupação constante nos estudos sobre televisão no Brasil e no mundo (BORGES, PUCCI JR., SELIGMAN, 2011; JENKINS, 2009; MACHADO E VÉLEZ, 2007; MITTELL, 2010). Também é crescente a análise das características dos programas televisivos como unidades especificamente criadas para este meio. Machado e Vélez (2007, p. 09) propõem que a ênfase não esteja “apenas nos aspectos meramente técnicos ou metodológicos da análise (visualização plano por plano, análise das sequências, estudo de gêneros e formatos etc.), mas na relevância dos programas enquanto contribuições singulares à televisão e à cultura contemporânea”. Adotando tais proposições este trabalho visa uma análise dos elementos estéticos e estilísticos de algumas sequências do primeiro capítulo da telenovela Gabriela, exibida pela Rede Globo em 2012. Nosso objetivo é refletir em que medida as inovações tecnológicas como o uso de câmeras digitais de grande velocidade, de acessórios que fazem a câmera voar e o aumento do tamanho das telas de TV tornaram possível a inserção de um conjunto de cenas capaz de sustentar o drama da travessia da personagem-título do sertão até a cidade de Ilhéus num trabalho elaborado de escala de planos, de angulações variadas e distorcidas redundando num uso farto de imagens em detrimento do diálogo.



Vislumbramos uma análise que demonstre que a peregrinação de Gabriela adotou um tipo de composição visual que capta o telespectador para dentro da imagem, enfatizando a tridimensionalidade; explorando a profundidade do plano, os retratos de personagens irrelevantes, conferindo à filmagem dos perfis um tratamento de paisagem. Quando Gabriela chega ao mercado de retirante de Ilhéus muitos rostos são enquadrados sem que nada seja dito. São instantes fotográficos de pessoas sofridas, famintas. Com claras inspirações no cinema brasileiro, como Vidas Secas, no trabalho fotográfico de Sebastião Salgado e em quadros como Os retirantes de Cândido Portinari, as sequências desse evento narrativo foram marcada por uma composição mais trabalhada, um ritmo mais lento, incomum para narrativas deste gênero.



Sendo assim queremos ver essa experiência de produção televisiva como significativa e, de algum modo, inovadora, ainda que no interior de um gênero que está dentre os mais estáveis quando se trata de pensar a televisão como fato cultural: a telenovela. Faremos perceber como o produto se revela aos olhos do analista sem, contudo, defender que estaríamos diante de uma nova estética, mas, sim, argumentar sobre novos modos do fazer televisivo possibilitados pela inserção de novas tecnologias de produção, edição, pós-produção e consumo.



Por outro lado, não podemos afirmar que tais características tenham marcado o primeiro capítulo como um todo. Por se tratar de uma construção estética onerosa, caracterizada por uma narrativa contada em ritmo lento, inadequado para uma produção exibida diariamente, podemos concluir que ela foi adotada para mostrar parte da trama e para atrair a atenção do público num primeiro momento. Este primeiro capítulo lançou mão da montagem paralela através da qual a travessia foi exibida de modo intercalado com as cenas da vida comum e cotidiana da cidade de Ilhéus, contadas segundo padrões da narrativa convencional, nas quais se apresentaram os demais personagens e os principais ambientes de cena aonde a história se passou. Diante do exposto, nosso corpus de análise compõe-se precisamente das quatro sequências que mostraram desde a partida de Gabriela do sertão até sua chegada a Ilhéus, no mercado dos retirantes, quando encontra Nacib, com quem protagonizará o folhetim. Nossa análise pretende, ainda, evidenciar as razões das escolhas feitas e o papel desempenhado pelas novas tecnologias na feitura de um dos principais produtos culturais de nossa televisão, a telenovela.
Bibliografia

BORGES, G.; PUCCI JR., R.; SELIGMAN, F. (eds.). Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e de Documentário. Volume I. Faro e São Paulo, 2011.

BUTLER, J. Television Style. New York: Routledge, 2010.

JENKINS, H. Cultura da convergência. Cultura da convergência. São Paulo: ALEPH, 2009.

MACHADO, A.; VÉLEZ, M. L. Questões metodológicas relacionadas com a análise de televisão. E-Compós, vol. 8, 2007, disponível em http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/123/124 Acesso em 30 mar 2013.

MITTELL, J. Television and American Culture. New York: Oxford University Press, 2010.