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  Título
Representações do masculino em clipes e filmes sob influência pornô
Autor
Rodrigo Ribeiro Barreto
Resumo Expandido
Estratégias audiovisuais de objetificação e erotização do corpo masculino provêm, não raramente, de realizações inseridas no mais marginalizado segmento videográfico/fílmico: o âmbito da pornografia. Nas obras desse gênero dirigidas por realizadores gays e direcionadas a esse público masculino, abundam os homens-objeto tanto em papéis ativos quanto passivos. A transposição de alguns desses performers para o campo audiovisual não pornográfico tem implicações texto-contextuais na representação masculina presente nas obras de destino. O propósito deste trabalho é justamente o de analisar – em dois videoclipes (That’s Me: Joe Oppedisano, 2007; Hood: Winston H. Case, 2012) e um filme (Homme au Bain: Christophe Honoré, 2010) – as incidências do aqui denominado “fator pornô”, termo que engloba desde as personae estabelecidas por esses atores até o tipo (e utilização) de corpo por eles evidenciado.

Muito embora, no corpus analisado, esteja ausente aquilo que é considerado como o principal diferencial da pornografia – a atividade sexual explícita –, ela persiste como marca indelével nos clipes e no filme avaliados. Conduzem a argumentação do trabalho as figuras de três performers daquele que Tom Waugh (2011) chamou de “star system altamente desenvolvido” da pornografia gay. Com corpos disciplinados segundo padrões de hipermasculidade, Colton Ford, François Sagat e Arpad Miklos são os respectivos protagonistas e objetos de interesse das obras em questão.

Em That’s Me, Ford investe na carreira de cantor pop, buscando uma reafirmação de poder derivada de sua imagem dominante de performer top/ativo, algo bem sublinhado pelo estilo rebuscadamente viril e agressivo de Oppedisano. Contudo, a organização da obra não se furta em posicionar Ford também como um objeto passivo a ser contemplado. Em ambos os casos, o diretor mencionou como essenciais a consciência corporal e a sensibilidade do cantor para realçar sua autoexibição segundo os esquemas de iluminação propostos. Como apontou Richard Dyer (1992), nota-se, portanto, uma erotização tanto das poses em plena ação quanto daquelas mais lânguidas e disponíveis, ambas tributárias da capacidade construtiva não apenas do diretor, mas também do próprio modelo objetificado: a proeminente contribuição deste último estando inclusive de acordo com convenções do formato videoclipe.

Homme au Bain, por sua vez, complexifica a representação masculina como dominância, diversificando algo que certos valores e representações culturais insistem como sólido e monolítico. Honoré vai acrescentando camadas à persona sexualizada de Sagat, parecendo até recorrer pontualmente a traços biográficos do performer. Desde os créditos, o ator é apresentado como figura central, sobre a qual vão se somando traços crescentes de vulnerabilidade e a partir da qual são comparadas as masculinidades distintas de outros personagens.

Finalmente, Hood retrata o relacionamento entre dois homens com um modo de subversão muito simples. A começar pelo abandono das prováveis expectativas derivadas da clara diferença física entre o cantor Mike Hadreas (de aspecto mignon e frágil) e o ator Miklos (grande e musculoso), o videoclipe reposiciona jogos de poder, que pareciam inevitáveis, apenas seguindo um inflexão romântica pouco habitual na representação masculina.

Em termos contextuais, é preciso apontar que, embora haja quem diagnostique uma crescente pornificação do audiovisual, sobressaem-se, nesse processo, o desejo do homem hétero e a correspondente objetificação feminina. A influência da pornografia gay é mais rara, aparecendo usualmente em obras não pornográficas fora do mainstream, ou seja, clipes de artistas iniciantes/alternativos e filmes independentes/ de menor orçamento (ainda que de diretores conhecidos). Adicionalmente, isso faz pensar, a partir de Emmanuel Cooper (1994), o quanto de relevantes inspirações, representações e efeitos das obras devem ser relacionados à expressão da orientação sexual de seus realizadores.

Bibliografia

COOPER, Emmanuel. The Sexual Perspective: Homossexuality and Art in the Last 100 Years in the West. New York/London: Routledge, 1994, 369 p.



DYER, Richard. Don’t Look Now: The Male Pin-up. In: CAUGHIE, J.; KUHN, A.; MERCK, M. (ed.). The Sexual Subject – A Screen Reader in Sexuality. New York/London: Routledge, 1992, p. 265-276.



DWYER, Susan. Pornography. In: LIVINGSTON, P.; PLANTINGA, C. (ed.) The Routledge Companion to Philosophy and Film. New York/London: Routledge, 2011, p. 515-526



PAJACZKOWSKA, Claire. The Heterossexual Presumption. In: CAUGHIE, J.; KUHN, A.; MERCK, M. (ed.). The Sexual Subject – A Screen Reader in Sexuality. New York/London: Routledge, 1992, p. 184-196



WAUGH, Tom. Pornografia Masculina: Gay vs Hétero. In: GATTI, J.; PENTEADO, F. M. (org.). Masculinidades: Teoria, Crítica e Artes. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2011, p. 297-323.