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  Título
ABSORÇÃO, IMERSÃO E AFETO: O ESPECTADOR NO MÉTODO DE FREDERICK WISEMAN
Autor
Jefferson Rocha Leite de Oliveira
Resumo Expandido
Frederick Wiseman talvez seja o mais importante documentarista representante do cinema direto americano ainda em atividade. A maioria de seus filmes retrata de forma observacional e não intervencionista a rotina de uma vasta sorte de instituições americanas – públicas ou privadas, tangíveis ou intangíveis, em espaços abertos ou fechados. Apesar da aparente neutralidade ao filmar o real, é seguro afirmar que toda a obra wisemaniana é permeada pelo seu comentário social subjetivo, tendencioso e parcial. Mesmo assim, seus filmes causam um efeito de objetividade sobre o espectador que o leva a sentir-se livre, não mediado por ideologia alguma, como se presenciasse uma espécie de verdade que só poderia ser adquirida por uma experiência pessoal, tamanho é o nível de detalhe, exposição e imersão que seus filmes proporcionam.



A vertente cinematográfica a que este diretor pertence – o cinema direto – normalmente é associada a um estilo documentário imparcial, cujo realismo estético, naturalismo performático e a invisibilidade processual impedem a orientação na leitura ou na recepção da obra, ou seja, acredita-se que o espectador tem a liberdade para interpretar o que vê na tela como quiser. Esse tipo de redução conceitual ingênua normalmente deixa de fora importantes fatores como a especificidade histórica e sociocultural das obras (e do próprio cinema direto), além de uma série de outros elementos fílmicos – a montagem, por exemplo – que podem ser configurados de forma a serem grandes produtores de sentido e direcionadores de interpretação.



Por se tratarem de filmes essencialmente lacunares em que nenhum tipo de informação prévia é fornecida, e nenhum tipo de racionalização é feita sobre o que se é apresentado, esses filmes demandam um engajamento muito mais ativo de quem os assiste. Se pensados por essa perspectiva, os documentários desse diretor tendem a requisitar um espectador muito mais parecido com aquele presumido nos movimentos do minimalismo artístico e da arte conceitual dos anos 60. Aliás, assim como no minimalismo, em que o espaço da obra se confunde com o espaço do espectador, a crítica política contida na série institucional de Wiseman muitas vezes pode ser lida como uma crítica à sociedade e os valores cultivados nela e por ela, fazendo com que a instituição em questão sirva como um mero microcosmo para que essa analogia crítica possa ser construída. Cria-se assim a possibilidade de que, em algumas de suas obras, o espectador se autoavalie e se coloque também como alvo da crítica.



Assim parece operar o didatismo sutil dos filmes de Frederick Wiseman. Não se trata da educação clássica, de fazer entender ou esmiuçar a lógica de funcionamento das instituições ou dos territórios sociais, mas meramente de expor o seu funcionamento, e, se possível, de forma a sugar o espectador para dentro da ação mostrada, para dentro daquele contexto específico se valendo de estratégias subjetivas que passam pela imersão e pelo afeto. Trata-se de transformar a imagem em experiência e tornar possível que o espectador vivencie o que vê e extraia algum tipo inédito de aprendizado a partir da sua relação única com a imagem.



O presente artigo pretende pensar o lugar do espectador na obra de Frederick Wiseman. Pensar sobre o quanto de seu método, fiel ao cinema direto, é planejado a partir da forma com que sua mensagem será recebida, e ainda, de que forma o seu método solicita o espectador por outros vieses que não aqueles convencionais ao documentário clássico, didático e argumentativo. Pretendemos apontar, em passagens de alguns dos primeiros filmes dirigidos pelo autor (Titicut Follies, High School, Hospital, Law and Order e Essene), os elementos afetivos recorrentes em seu método, as formas com que o diretor direciona o olhar do espectador e comunica a sua mensagem crítica sobre o maquinário ideológico e institucional estadunidense.
Bibliografia

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