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  Título
Mar de Rosas(1977), de Ana Carolina. Uma leitura histórica do feminino
Autor
Marcella Grecco de Araujo
Resumo Expandido
Ana Carolina traz em seu filme, Mar de Rosas, abordagens do feminino até então pouco exploradas na cinematografia nacional. Sem dúvida, foram raras as vezes que, na história do cinema brasileiro, uma protagonista feminina tenha demonstrado tanta rebeldia em relação às normas impostas pela sociedade. Em plena Ditadura Militar ouvimos o grito contido, de uma cineasta que rompeu amarras e trouxe para o cinema mulheres ativas no controle de seus próprios destinos.

Mar de Rosas é a primeira parte de uma trilogia iniciada em 1977 e que continua com Das Tripas Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987). Estas duas últimas, também portadoras de um viés inovador no tratamento dado à questão feminina em nosso país. Logo no início do filme, Felicidade (Norma Bengell) fere seu marido com uma gilete e o deixa sangrando até a morte no quarto de um hotel. Então ela e sua filha, Betinha (Cristina Pereira), partem numa espécie de road movie. O evento e seus desdobramentos configuram um rompimento com os cânones que predominavam na condição feminina de uma época em que a preservação incondicional do casamento e a manutenção a qualquer custo da estrutura familiar prevaleciam.

No fazer cinematográfico nacional a situação de submissão não era muito diferente. Nesse campo, as mulheres foram, por muito tempo, relegadas a tarefas pouco expressivas. Como na sociedade de maneira geral, elas desempenharam, por décadas, papéis secundários. Foi por volta dos anos 1970 que a situação começou a mudar efetivamente, pois com os movimentos sociais começaram a exigir, cada vez mais, que a voz das minorias se fizesse ouvir. Tomando o filme de ficção como um documento histórico, podemos apreender o contexto sociocultural em que a obra foi produzida. Além disto, tanto a sociedade que produz quanto a que recebe influi na leitura do filme, conscientemente ou não.

Foi mais ou menos no início da década de 1960 que os filmes começaram a ser pensados como documentos históricos. Segundo Freire (2006) foi principalmente na França e com o movimento que recebeu o nome de Nova História, ainda nos anos 1920, que a história passou a ser considerada mais do que um mero enfileirar de fatos das classes dominantes e a debruçar-se sobre outros documentos, não apenas os escritos, para tentar apreender também a mentalidade do povo em questão.

O filme de ficção, e não somente o documentário, pode ser lido como um documento histórico e como agente da História. Como documento ao deixar transparecer, por exemplo, as condições de produção, as tecnologias utilizadas, a abordagem de uma temática, a manipulação de um gênero e o processo de comercialização. O filme de ficção é um documento histórico mesmo quando não trata de um tema histórico, pois pelo fato de ter sido produzido em determinado contexto já nos traz, obrigatoriamente, uma série de informações deste contexo.

Para mais além, podemos dizer também que qualquer artefato audiovisual é um agente da História, pois em cada produção pode-se encontrar mais do que aquilo que já é conhecido e divulgado pela História oficial. Detalhes e minúcias ignorados por esta última podem ser recuperados em tais artefatos, notadamente naqueles até então pouco explorados. Dependendo da sociedade que está recebendo a produção, a leitura também tende a mudar. “Desempenhando assim um papel ativo, em contraponto com a História oficial, o filme se torna um agente da História pelo fato de contribuir para uma conscientização.” (FERRO, 2010, p. 11).

Este estudo pretende, portanto, analisar as representações do feminino em Mar de Rosas fazendo relações com o contexto no qual a obra estava inserida. O filme será tratado com documento histórico e como agente da História, por ter colocado em pauta novas questões sobre a condição feminina para a sociedade brasileira. Mais do que isto, chamaremos atenção para o cinema feito por mulheres, posicionando uma importante diretora como agente ativo na história do cinema nacional.
Bibliografia

BARROS, José D'Assunção; NÓVOA, Jorge (Oorgs.). Cinema-História: teoria e representações sociais no cinema.  Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.

BERNADET, Jean-Claude; RAMOS, Alcides Freire. Cinema e história do Brasil. São Paulo: Editora Contexto/Editora da USP, 1988.

FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

FREIRE, Marcius. Sombras esculpindo o passado: métodos... e alguns lapsos de memória no estudo das relações do cinema com a história. Fragmentos de Cultura. Goiânia, v.16, n.9/10, set./out. 2006.

MOCARZEL, Evaldo. Ana Carolina Teixeira Soares – cineasta brasileira. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.

RAMOS, Fernão Pessoa (org.). História do cinema brasileiro. São Paulo: Art / Secretaria de Estado da Cultura, 1990.

TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.