/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Da atração à repulsa - o efeito-câmera em três filmes de dispositivo
Autor
Laécio Ricardo de Aquino Rodrigues
Resumo Expandido
Originalmente formulado por Foucault (2000) para ilustrar seus estudos sobre a sociedade moderna e as implicações do poder disciplinar sobre os indivíduos, promovendo efeitos de assujeitamento ou novas subjetividades (Agamben, 2009), a noção de dispositivo tem se revelado fértil para se pensar o campo cinematográfico. Sobretudo enquanto estratégia criativa e política capaz de produzir acontecimentos que recusam o controle demasiado do realizador e que acolhem o imprevisto/inesperado em suas tomadas, promovendo assim uma reabilitação da imagem ante o “grande cinema”, desgastado pelo artifício e pelo espetáculo (Comolli, 2008). No caso do documentário, argumenta Comolli, a ação deflagrada pelo dispositivo visa tensionar a cena, revelando o real como força do fora de campo que ameaça transbordá-la ou estilhaçá-la, bem como arrefecer as condutas premeditadas – os estados de vigilância acionados sempre no início de cada tomada.



“Rua de Mão Dupla” (2005), de Cao Guimarães; “Pacific” (2009) e “Câmara Escura” (2012), de Marcelo Pedroso – três exemplos de documentários brasileiros recentes que reiteram a potência do dispositivo como estratégia criativa no campo cinematográfico. O objetivo deste trabalho é analisar as estratégias políticas postas em circulação por estes filmes e seus resultados estéticos. Neste exercício, desejamos ressaltar seus pontos de convergência e de distanciamento, com ênfase nas performances instigadas pelo “efeito-câmera” em cada um deles (as relações que os personagens estabelecem com as câmeras, relações que vão de uma atração irresistível a uma completa repulsa), bem como o conflito público e privado (intimidade e exposição) que desponta em suas abordagens – polaridade central nestas obras.



Em “Rua”, podemos indagar: o que faz com que sujeitos desconhecidos entre si aceitem trocar de domicílios e ceder a intimidade de suas casas (outrora o recanto da privacidade) à curiosidade de um olhar bisbilhoteiro, ao mesmo tempo em que se entregam a um exercício voyeurista numa moradia que lhe é estranha? Em “Pacific”, nos defrontamos com alguns passageiros que, estimulados pelas gincanas deflagradas numa espécie de “navio-auditório”, se entregam a performances desregradas, continuamente registradas por câmeras que parecem nunca ser desativadas. Mas, se neste título de Pedroso, a máquina de filmar é objeto de manuseio constante por sujeitos entusiasmados com a profusão das lentes e flashes, em “Câmara Escura” ela se torna objeto de uma recusa e desconfiança absoluta. Nesta obra, a casa, espaço de livre exploração em “Rua de Mão Dupla”, retoma sua condição de fortaleza/abrigo de uma intimidade que não aceita ser perscrutada.

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

BRASIL, André; FELDMAN, Ilana; RODRIGUES, Laécio [et al]. Catálogo Pacific – Textos para Debate. Recife: Funcultura/Fundarpe, 2011.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e Poder – A Inocência Perdida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 26ª edição. Petrópolis: Vozes, 2000.

MIGLIORIN, Cezar (org.). Ensaios no Real. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2010.

PARENTE, André. A forma cinema: variações e rupturas. In: MACIEL, Kátia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2010.

RANCIÈRE, Jacques. O Espectador Emancipado. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.