/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O SOM DA MONTAGEM : papel da montagem no processo de criação do som n
Autor
Kira Santos Pereira
Resumo Expandido
O cinema nasceu imagem. Desde seus primeiros passos no entanto, – ainda no chamado “cinema silencioso” - a música, vozes e ruídos foram agregados nas apresentações de forma expressiva, com o objetivo de envolver o público e intensificar dramaticamente o espetáculo. Mais do que isso, segundo Munstenberg, mesmo as imagens silenciosas faziam ativar na memória do espectador os sons que lhe eram familiares. O autor cita a clássica imagem produzida e apresentada ao público pelos irmãos Lumiére - a chegada do trem - como exemplo: segundo ele, a imagem do trem se aproximando da câmera, com suas engrenagens metálicas e a fumaça de suas caldeiras e de seu apito, faria o público imaginar, baseado em experiências anteriores, o som que “derivava” da imagem. E imagem projetada, somada ao som imaginado, poderiam ser usados para prender a atenção do público, uma vez que “tudo o que é barulhento, brilhante e insólito atrai a atenção involuntária” (MUNSTEMBERG in XAVIER,1983, p.32)

Em conformidade com essa percepção, cineastas do período silencioso passaram a utilizar de maneira sistemática estratégias de representação sonora em seus filmes. Planos de “imagens sonoras” - como apitos de fábrica , sinos, alarmes; ou reações a ações de som intenso, como objetos tremendo – eram constantemente usados para pontuar e intensificar momentos da narrativa. Gestos de escuta dos personagens eram usados com o mesmo fim, e além disso ajudavam a concretizar o espaço fora de tela, ligando espaços e criando uma segunda camada sobre a imagem, mesmo antes do som sincrônico conseguir fazê-lo de fato.

Neste mesmo período a montagem passa a desenvolver o trabalho com ritmo, se apropriando desse elemento fundamental da música – uma arte que assim como o cinema só se realiza através do tempo. Utilizando aspectos de movimento interno nas imagens, através da sucessão rítmica dos planos, trabalhando a variação da duração dos planos, desenvolve-se a técnica da aceleração ou desaceleração da narrativa como estratégia para intensificar o drama ou buscar pausas dramáticas na estória a ser narrada. Como foi bem descrito em Som-Imagem no cinema (MANZANO, 2003), no filme Metrópolis Fritz Lang se utilizou de forma extremamente expressiva de todos estes recursos, exemplificando estratégias que podem inspirar um uso do som inserido na imagem e na montagem até os dias de hoje.

Na ocasião da concretização da possibilidade técnica de sincronização de sons e imagens – o chamado cinema sonoro – surgiram algumas discussões a respeito de qual seria a melhor utilização, em termos da continuidade do avanço da linguagem cinematográfica, desse recurso. Apesar de não ter se concretizado da maneira como desejavam seus proponentes, as idéias com maior reverberação ainda hoje, ao menos no ambiente acadêmico, foram aquelas propostas na Declaração sobre o futuro do cinema sonoro , que defendia a idéia de que “O primeiro trabalho experimental com o som deve ter como direção a linha de sua distinta não-sincronização com as imagens visuais (…) que mais tarde levará à criação de um contraponto orquestral das imagens visuais e sonoras” (EISEINSTEIN, 2002, p. 226). Este trabalho de montagem vertical e de estrita não-sincronização entre imagens e sons, apesar de não ter se firmado como estética dominante, pode encontrar reverberações em quase todos os filmes, seja pelo uso do som fora de tela, pelo deslocamento, ou overlapping de som de uma cena para a outra, de distorções ou reinterpretações dos sons naturalistas da cena, entre outras possibilidades. E apesar de em alguns casos poder surgir na etapa de edição de som, normalmente tem resultados mais interessantes e orgânicos quando articulado na etapa de montagem.

Esta pesquisa, ainda em seu inicio, pretende analisar e entrecruzar os autores que relacionaram os temas de montagem e som ao longo da história do cinema, buscando traçar um panorama das variadas aproximações a estes dois universos.
Bibliografia

BRESSON, Robert. 2000.Notas sobre o Cinematógrafo. Porto: Porto Editora.

CHION, Michel. 2011. A Audiovisão - Som e imagem no cinema. Lisboa: Edições Texto e Grafia.

Eiseinstein, Serguei . 1990. A forma do filme. Trad. de Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Zahar.

___________________. 1990. O sentido do Filme. Trad. de Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Zahar.

_________________. 1999. A relação som-imagem no cinema: a experiência alemã de Fritz Lang. Tese (mestrado) ECA/USP. São Paulo, ECA/USP.

MURCH, Walter. 1995. In the blink of na eye; a perspective on film editors. Univ. California Press.

Michael Ondaatje. 2002. The Conversations: Walter Murch and the Art of Editing Film. Bloomsbury Paperback

XAVIER, Ismail (org). 1983. A Experiência do cinema: antologia / - Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafílmes,