/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A FILOSOFIA E A ANÁLISE FÍLMICA
Autor
YANET AGUILERA VIRUEZ FRANKLIN DE MATOS
Resumo Expandido
Pode-se dizer que na filosofia as imagens tiveram e ainda têm um peso negativo. Alguns textos de Platão e o modo como a tradição leu este filósofo contribuíram para essa avaliação. Talvez exagerando um pouco è possível pensar que um tom iconofóbico marca quase toda a história da filosofia, embora não todos tenham essa opinião. Para citar uma referência atual, Henri Bergson é um dos que colocam a imagem em outro nível: ao defini-la como movimento, atribui-lhe uma densidade que carecia na maior parte das filosofias. A imagem foi e é vista, em geral, como copia degradada de uma ideia ou um mero conteúdo ou significado de um referente ou forma A necessidade de pensar a imagem com mais seriedade fez com que a relação entre filosofia e cinema esteja cada vez mais presente nas reflexões dos filósofos contemporâneos. Muitos deles escreveram livros que unem pensamentos filosóficos e análises fílmicas. Em geral, esta interdiscursividade lhes permitiu pôr na berlinda a concepção de imagem pressuposta tanto na filosofia como no cinema. Gilles Deleuze y Jacques Rancière dedicaram mais de um livro ao cinema, destacando sua importância na estética, a teoria e, a política na sociedade contemporânea. Cinema I – a imagem movimento e Cinema II – a imagem tempo, são livros seminais nesse sentido. Neles, as análises fílmicas que aparecem não pertencem unicamente ao autor. Deleuze, um dos primeiros filósofos a conceder de fato um valor teórico ao cinema, introduziu no texto filosófico o discurso de críticos cinematográficos que, em geral, é desconsiderado pelos filósofos. Este hibridismo discursivo vai além das citações comuns a um pensador que está se metendo em ceara alheia e precisa de argumentos de autoridade para sustentar suas idéias. Trata-se de um diálogo que supõe um embate, que quase sempre é inevitável quando dois tipos de discursos são associados. Estudar como se produz essa interdiscursividade parece crucial para entender qual é o status que Deleuze atribui à imagem cinematográfica e, portanto, ao discurso que se pode fazer sobre ela. Recorrer à crítica cinematográfica é um esforço para não limitar a abordagem da imagem cinematográfica à distância conceitual do estilo filosófico? A prática analítica, menos abstrata, talvez possa garantir uma maior aproximação à imagem? Essas questões demandam uma compreensão sobre o que se joga em uma análise cinematográfica. Segundo Rancière, “pensar a arte das imagens no movimento é de início pensar a relação entre dois movimentos: o desenrolar visual das imagens próprias ao cinema e a dissipação das aparências que caracteriza mais amplamente a arte das intrigas narrativas”. A problemática que se desdobra dessa definição será “como o desenrolar visual das imagens pode casar-se com a lógica do desvendar da verdade nas aparências?” (2001). Entretanto, definir a análise cinematográfica dessa maneira é colocar de nova a velha questão filosófica da subordinação das imagens ao conceito ou à narração, como tradicionalmente os estudiosos do cinema desenvolveram em suas práticas analíticas. Deleuze criticou a Christian Metz o fato de ter pensado a narração como formando parte das imagens. Mesmo no caso do cinema ter se desenvolvido historicamente como narrativo, “a narração nunca é um dado aparente das imagens ou o efeito de uma estrutura que as sustenta, é consequência das próprias imagens aparentes, das imagens sensíveis que se definem por si mesmas” (1990). Este trabalho trata de examinar as teorias e as analises que Deleuze e Rancière fizeram de Vértigo, de Hitchcock, para entender a relação que ambos estabeleceram entre filosofia e prática fílmica analítica. O objetivo final é problematizar as conexões entre imagem e narrativa que se deslindam dessa junção e que fazem parte da tradição filosófica e cinematográfica. Ao mesmo tempo, propomos uma análise que considere o texto e a linguagem cinematográfica a partir da imagem, subvertendo de essa forma a abordagem tradicional da imagem cinematográfica.
Bibliografia

BAECQUE, Antoine. L´histoire-caméra. Paris, Gallimard, 2008.

DEBORD, Guy. La Société du Spectacle. Paris,Folio Gallimard, 1996.

DELEUZE, Gilles. A imagem movimento – cinema I. Lisboa, Assírio e Alvim, 2009.

Cinema II – A imagem tempo. São Paulo, Brasiliense, 1990.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontages du Temps Subi. L´Oeil de l´Histoire, 2. Paris, Les Éditions de Minuit, 2010.

FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits I. 1954-1975. Paris, Gallimard, 2001.

MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro, Zahar, 2009.

RANCIÈRE, Jacques. Le spectateur émancipé. Paris, La Fabrique Éditions, 2008.

La Fable cinématographique, Paris, Seuil, 2001.

Les Écarts du Cinéma. Paris, La Fabrique, 2011.

XAVIER, Ismail. In O olhar e a cena. São Paulo, Cosac & Naify, 2003.

ZIZEK, Slavoj. Lacrimae Rerum – ensaios sobre cinema moderno. São Paulo, Boitempo Editorial, 2009.