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  Título
A imagem do paraibano no cinema
Autor
VIRGÍNIA DE OLIVEIRA SILVA
Resumo Expandido
O presente artigo é fruto das reflexões coletivas realizadas pela equipe multidisciplinar formada pelas professoras coordenadoras e pelos estudantes que compõem o Projeto Cinestésico, oriundos dos Cursos de Comunicação Social, Pedagogia, História e Filosofia, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, ao promover suas atividades semanais de pesquisa, exibição, debate e produção de audiovisual. Tais reflexões foram enriquecidas pelos intensos debates promovidos em sala de aula, pelos diversos grupos de estudantes matriculados na disciplina Política Educacional da Educação Básica que leciono em diversos Cursos de Licenciatura.

Pretendemos aqui, especificamente, possibilitar a compreensão de uma dada produção de identidade do paraibano, a partir da análise de conteúdo do filme O homem que virou suco (1981), roteirizado e dirigido por João Batista de Andrade, e estrelado pelo ator natural da Paraíba, José Dumont. Dentre a farta produção cinematográfica nacional em que a temática paraibana por diversas vezes aparece, ora representada na saga de personagens, sejam protagonistas ou coadjuvantes, ora em ocasiões nas quais o próprio Estado da Paraíba é tomado como cenário da narrativa fílmica, ou, ainda, quando o substantivo “Paraíba” torna-se adjetivo pátrio e acaba por denominar as personagens (como Paraíba, vida e morte de um bandido - 1966, de Victor Lima; Parahyba, mulher macho - 1983, de Tizuka Yamazaki; A hora da estrela - 1985, de Suzana Amaral), escolhemos esse filme de João Batista de Andrade por julgarmos apresentar relevante e profunda contribuição crítica da construção identitária do nordestino em outras regiões do Brasil, especialmente a Sul e a Sudeste.

A análise de O homem que virou suco nos auxiliou a promover com mais segurança e tranqüilidade as nossas ações extensionistas, junto aos estudantes do Ensino Médio, na modalidade Formação de Professor, do Instituto de Educação da Paraíba - IEP, nas quais trabalhamos conceitos como os de regionalismo e nordestinidade, debatendo-os após a exibição deste e de outros títulos da cinematografia nacional, como O senhor do castelo, de Marcus Vilar e Cabaceiras, de Ana Bárbara Ramos.

Destacamos especial atenção ao próprio papel que os meios audiovisuais possuem por se constituírem em suportes de exercício de auto-reflexão crítica dos sujeitos, para que se auto-constituam intersubjetivamente como criadores de conhecimento no mundo social. Conforme BETTON (1987, p. 98) “o cinema permite que cada espectador conte-se a si próprio, veja-se viver, julgue-se. Revela-nos inúmeros desejos insuspeitos.” É neste sentido que planejamos incluir em nosso trabalho o filme em questão, incorporando-o como instrumento de construção de conhecimento e de auto-constituição de sujeitos reflexivos, cidadãos críticos no mundo midiático globalizado (McLUHAN, 1969).

Consideraremos, para efeito de uma melhor exposição didática de nosso trabalho, o processo de construção do filme e alguns exemplos de cenas destacadas do todo narrativo contido ao longo dos noventa minutos de O homem que virou suco. Assim, dedicamos especial atenção, sobretudo, às cenas em que se destacam alguns dos padrões sedimentados no imaginário social acerca do nordestino brasileiro, a saber: o cordelista; o coronel; o peão de obra; o cangaceiro; o analfabeto; o preguiçoso; o conformado; o subalterno; e o machão.

O homem que virou suco conta em seu elenco com José Dumont (Deraldo / Severino), Aldo Bueno, Rafael de Carvalho, Ruthinéa de Moraes, Denoy de Oliveira (mestre de obras), Ruth Escobar (madame benevolente), Dominguinhos (representa a si mesmo), Vital Farias (representa a si mesmo e é responsável pela brilhante trilha sonora do filme), e Célia Maracajá, dentre outros.

Ganhou diversos prêmios, como o de Melhor Filme no Festival de Moscou; o de Melhor Ator (José Dumont), no Festival de Huelva; e o Prêmio São Saruê, em 1983, pela Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro.
Bibliografia

ABDALLAH, A. e CANNITO, N. (Orgs.) O homem que virou suco. Aplauso, SP: Imprensa Oficial SP, 2005.

BETTON, G. Estética do cinema. SP: Martins Fontes, 1987.

CUCHE, D. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. Bauru, SP: EDUSC, 1999.

EPSTEIN, I. O signo. SP: Ática, 1985.

LARAIA, R. de B. Cultura: um conceito antropológico. 21 ed, RJ: Jorge Zahar, 2007.

LEAL, W. O Nordeste no cinema. 2 ed, PB: Ed Universitária/FUNAPE/UFPB, 1982.

LOBO, J. C. “Paraíbas e Baianos (Análise de representações de migrantes nordestinos em filmes de ficção ambientados nas metrópoles)” In: reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17729/1/R0739-1.pdf

McLUHAN, M. O meio é a mensagem. RJ: Record, 1969.

PENNA, M. O que faz ser nordestino – identidades sociais, interesses e o “escândalo” Erundina. SP: Cortez, 1992.

ROCHA, E. O que é etnocentrismo. SP: Brasiliense, 1984.

RODRIGUES, M. E. Psicologia Social dos Estereótipos. SP: EPU, 2002.

STAM, R. Estereótipo, realismo e representação racial. Campinas:Imagens, 2012.