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  Título
O esboço musical elevado à dignidade de trilha sonora em Cassavetes
Autor
Ruy Vasconcelos de Carvalho
Resumo Expandido
A sutura entre imagem e som consiste numa operação arriscada. A mescla de ritmos produzidos por movimentos, em ambas as bandas, imagética e auditiva, implica numa sorte de ligação definitiva e imperfeita, assemelhada a um casamento de longa duração, uma síntese entre imagem e som, em que já não se pode supor um cônjuge sem o outro. Alguns dos teóricos do som têm chamado atenção para a forte e misteriosa ligação – ainda que inteiramente arbitrária – entre uma dada sequência de imagens e as vozes, música e/ou ruídos que a sonorizam. Michel Chion, por exemplo, nos fala em termos de 'síncrese' (sincronização e síntese), como o processo que não só junge o som à imagem - ainda que esse som envolva alguma modalidade de pós-sincronização, deformação deliberada ou qualquer outra modalidade posterior de manipulação ou deslegendagem sonora - como os ata na composição de um sistema que resulta não ser mais nem só som nem apenas imagem. O conceito de 'síncrese' em Chion guarda algumas lacunas e inconveniências. Mas a partir dele pode-se entender o procedimento arriscado de alguns realizadores numa linha de cinema menos convencional. John Cassavetes – notadamente em colaboração com o engenheiro de som e músico Bo Harwood – parece implicar que algumas gravações devam ser trazidas à edição final ainda em esboço. E, portanto, essa indicação não só aponta para a dignidade do esboço, do registro precário enquanto sugestão inicial(e, em certos casos até mesmo aurática, ultra-específica, irreproduzível); como, muito possivelmente, também para o fato de que uma maior elaboração desse esboço – correções de afinação, overdubs, acréscimos de instrumentação, etc. – implicar numa regressão da efetividade e da excelência estética do recurso em questão. Especialmente quando atado a imagens cujo regime geral difere da normatividade mais recorrente do cinema comercial de Hollywood ou da TV Estadunidense nos anos de 1970, caso dos filmes de Cassavetes, esse recurso do uso do esboço ao invés do som pós-produzido ganha uma dignidade própria. Nosso objetivo é constatar o emprego desses esboços, desses registros provisórios ou iniciais de tema musical – gerados, por vezes, para efeitos meramente mnemônicos – no lugar de um registro mais elaborado, definitivo ou retrabalhado posteriormente. Isso se dá pontualmente mediante a análise de duas pequenas sequências em filmes de Cassavetes: A Woman Under the Influence (1974) e The Killing of a Chinese Bookie (1976). Em ambas as sequências – a segunda delas com uma variante de edição – pode-se constatar o obsessivo trabalho de montagem sonora efetuado por Cassavetes e a definitiva importância que ele,como músico (pianista) amador, atribuía assima à questão do som em seus filmes.

















Bibliografia

CARNEY, Ray – Cassavetes on Cassavetes, New York and London: Faber and Faber, 2001.

CHION, Michel – Audio-Vision: Sound on Screen. New York: Columbia University Press, 1995.

DELEUZE, Gilles. Cinema 2, L'image Temps. Paris: Les Edition de Minuits, 1985.

WEIS, Elisabeth and BELTON, John . Film Sound. London:University Press Group Limited, 1985.