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  Título
Pessimismo revolucionário, resistência e liberdade em Jean Vigo
Autor
Daniela Duarte Dumaresq
Resumo Expandido
Jean Vigo teve uma breve e influente carreira. Três de seus quatro filmes seriam recorrentemente lembrados, a partir dos anos 1950, como referências para as transformações pelas quais passaria o cinema nos anos seguintes. Retornar aos filmes de Vigo não é apenas recuperar parte da história das relações entre seus filmes e os que vieram depois. É também entender suas formas de ver e dar a ver o mundo no qual vivia. Suas questões foram articuladas às margens de uma sociedade em ebulição e contribuem para pensar uma modernidade que ainda tem o que dizer ao mundo no qual vivemos.



O objetivo desta comunicação é, ao analisar a filmografia de Jean Vigo, buscar os sentidos possíveis para o pensamento do diretor sobre o universo que filma e com o qual se relaciona. Ou mais diretamente: como Vigo concebe e apresenta seu pensamento, em particular suas ideias de "pessimismo revolucionário", "resistência" e "liberdade". Entendo, como Martins (2011), que a fotografia [assim como o filme] "introduz alterações nos processos interativos, na pluralidade de sentidos que há tanto no lado do fotógrafo quanto no lado do fotografado e do espectador da fotografia" (p.36). Martins ressalta a relação triangular de construção de sentido na fotografia que também diz respeito a forma como o filme produz sentidos. É como o vértice dessa relação que o analista se coloca para buscar possíveis sentidos para o filme em sua relação com o mundo filmado. Relacionar-se com os filmes de Vigo é relacionar-se com um universo marcado pelas vanguardas artísticas, pelo pensamento cinematográfico de Epstein, pela convicção de que o mundo tal como se lhe oferecia precisava ser transformado.



Jean Vigo apresenta em seus filmes um visão de mundo que pode ser descrita em termos de pessimismo revolucionário. Essa forma de pessimismo significa acima de tudo desconfiar do curso natural da história: "Não é a crença teleológica em um triunfo rápido e certo que motiva o revolucionário, mas a convicção profundamente enraizada de que não se pode viver como um ser humano digno desse nome sem combater com pertinácia e vontade inabalável a ordem estabelecida." (LÖWY, 2002, p. 16). No filme O Atalante esse pessimismo se apresenta como uma rejeição do mundo moderno com suas filas de desemprego, suas vitrines brilhantes e suas relações pueris. Já no filme A propos de Nice a vida pequeno burguesa dos turistas contrasta com a solidariedade e a miséria encontrada no bairro popular.



Em Vigo, o pessimismo revolucionário combina-se a um gosto pela liberdade. Sua ideia de liberdade aparece encarnada na figura de Père Jules, de O Atalante: preso na embarcação, ele tem o mundo inteiro em seu corpo. O contraponto entre restrição de movimento e liberdade constrói o filme Zéro de conduta, que se passa em um internato. Sales Gomes (2009) a partir da análise de um projeto não concluído, um documentário sobre o tenista Cochet, traça considerações gerais sobre o pensamento de Vigo. Ele observa que o gosto pelas histórias de crianças combina-se com sua ideia de liberdade e observa seu "respeito pela criança e sua liberdade", concluindo: "Vigo fala em crianças, mas essas crianças são simbolicamente para ele todos os homens, a começar pelos mais fracos, os pobres" (p. 129). Em seu primeiro filme, Vigo relutou em apresentar Nice como o balneário turístico que fez a fama da cidade. Imagens do cemitério zombam dos arroubos elegantes dos que ali vivem e a vida no bairro popular contrasta, em sua forma de alegria, do carnaval no Passeio dos Ingleses. Ao criar esses contrastes ele não apenas zomba de um grupo ou denuncia as mazelas da vida do povo pobre; Vigo apresenta a cultura vivida pelos populares como uma forma de resistência. Descrença no presente, resistência e liberdade estão no cerne da obra a ser analisada.

Bibliografia

BRETON, André. Manifestos do Surrealismo. Tradução de Sérgio Pachá. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2001 [1924].

EPSTEIN, Jean. Jean Epstein. In: XAVIER, Ismail. (Org.). A experiência do Cinema: antologia. Rio de Janeiro: Graal/Embrafilmes, 1983.

LÖWY, Michel. A estrela da manhã: Surrealismo e marxismo. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

MARTINS, José de Souza. Sociologia da fotografia e da imagem. São Paulo: Editora Contexto, 2011.

SALES GOMES, Paulo Emílio. Jean Vigo. Tradução de Dorothée de Bruchard. São Paulo: Cosac Naify/Edições Sesc, 2009

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Tradução de Fernando Mascarello. Campinas: Papirus, 2006.