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  Título
PEQUENAS HISTÓRIAS FACE À GRANDE HISTÓRIA
Autor
Carla Maia
Resumo Expandido
Diário de uma busca (Flávia Castro, 2010) e Os dias com ele (Maria Clara Escobar, 2013) têm muito em comum: longas de estreia das respectivas diretoras, neles o tema da ditadura militar no Brasil é trazido à cena através de uma mirada pessoal e afetiva, fortemente marcada pela vivência familiar e centrada na figura paterna. Os pais de ambas tiveram participação expressiva na resistência ao regime, como militantes da luta armada. Ambos enfrentaram o poder instituído mas fracassaram em seus projetos revolucionários. Celso Castro, pai de Flávia, morreu durante uma ação controversa no início dos anos 1980, dentro do apartamento de um suposto colaborador nazista. A versão oficial dita que ele cometeu suicídio. Carlos Henrique Escobar, pai de Maria Clara, vive em exílio voluntário numa pequena cidade de Portugal há doze anos. Abandonou a filosofia e a dramaturgia, fazendo opção pelo “absoluto anonimato”. As filhas, cada uma se sentindo orfã a sua maneira, decidem tomar o cinema como instrumento de reconstrução da memória oblíqua que guardam de seus pais e de seu país.

Duas pequenas histórias face à grande história: se a última tende a registrar a versão dos “vencedores”, as menores dão vez aos “vencidos”, bem ao modo benjaminiano: articulando o passado ao presente, não por conhecê-lo como de fato foi, mas por apropriar-se de uma reminiscência, “tal como ela relampeja no momento de um perigo” (1994: 224). Cada diretora vai buscar os recursos possíveis para se apropriar desses lampejos de memória, reunindo o que resta. Há certas coincidências de escolhas: ambas lêem cartas escritas pelo pai; utilizam material de arquivo e realizam entrevistas. Uma análise comparativa permite notar, contudo, como um mesmo recurso pode assumir funções discursivas bem distintas. O material de aquivo, por exemplo, em Diário – fotos, recortes de jornal, antigas gravações, laudos periciais - assume cárater de documento ou prova, sendo apresentado como reunião de pistas que ajudam a retraçar a trajetória do pai. Em Os dias, contrariamente, o material de arquivo formado pelas imagens em Super-8 nada atestam sobre o passado de Carlos Henrique. São filmes de famílias desconhecidas, inseridos entre uma entrevista e outra, que acabam por sugerir a distância e o mútuo estranhamento que permeiam o diálogo entre pai e filha. Em Diário, o arquivo é indicial, composto por vestígios do que de fato existiu, em Os dias, ele é metafórico, coleção de imagens que substituem a imagem que falta: a de pai e filha juntos, no convívio familiar. Figuram o que, afinal, não existiu. Nas entrevistas, de modo análogo, as questões são endereçadas distintamente: no caso de Castro, são motivadas pela inquietação da diretora em desvendar o que foi que, de fato, aconteceu, como Celso viveu e morreu. Já em Escobar, as entrevistas revelam uma dupla inquietação, tanto de quem está sendo filmado quanto de quem filma, em descobrir o que, afinal, está acontecendo, que filme é esse, que relação ainda é possível.

É certo que nem Flávia nem Maria Clara conseguem respostas definitivas para suas perguntas. Jamais saberemos se Celso se suicidou ou não. E Carlos Henrique, ao fim do filme, após horas de conversa, não hesita em dizer à filha: “você não me conhece”. O que afinal, podemos conhecer de Celso, de Carlos, da história do Brasil? No sutil deslocamento que operam do pessoal ao público, diante do silêncio e da obscuridade que ronda a ditadura, tais filmes parecem feitos da “matéria sobrevivente – luminiscente, mas pálida e fraca, muitas vezes esverdeada, dos fantasmas” (DIDI-HUBERMAN, 2011: 14). Contudo, ainda que entre sombras e lacunas, eles deixam seu testemunho e sobrevivem. Face à escuridão histórica, essas pequenas histórias tecidas entre gerações são como lampejos, discretos, tremeluzentes, mas que por sobreviver se dirigem ao futuro, tão desconhecido e espantoso quanto o passado. Entre vencedores e vencidos, com a face para trás e as asas para frente, o anjo da história segue seu vôo.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In: Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.