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  Título
Modulações da política: territórios e processos subjetivos
Autor
Cezar Migliorin
Resumo Expandido
A comunicação está focada no gesto do documentarista contemporâneo e os modos de fazer coexistir duas dimensões inalienáveis da política, aquelas ligadas às micropolíticas, que atentam para as organizações estéticas e modulações subjetivas operadas por sujeitos e múltiplos poderes em uma dimensão propriamente biopolítica e a política enquanto disputa de território institucional em que operam noções como identidade, pertencimento, gêneros e classe.



É com os filmes que percebemos o trânsito entre essas dimensões, entretanto, não é apenas na análise das imagens que o cinema opera entre esses gestos políticos. O cinema feito no Xingu, com filmes como As Hipermulheres, de Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro (Brasil, 2011) é exemplar desse trânsito. Ao mesmo tempo em que ao reler a tradição o filme é revelador das potências estéticas da comunidade e do que se inventa com o cinema, o deslocamento do cinema para além da comunidade é fundamental para as formas de legitimar uma “cultura” – entre aspas, reflexiva, como coloca Manuela Carneiro da Cunha - e para a força que os próprios cineastas passam a ter na comunidade e fora dela. (Fausto, 2011)



Tal atenção nos demanda um esforço metodológico no trabalho com o cinema, uma vez que interrogamos os filmes entre os modos de tradução e produção de um comum, atentando para a conexão inextricável entre política e estética, ao mesmo tempo em que nos interessam os gestos que apontam para um engajamento em uma política molar, expresso nos filmes.



Na presente comunicação trabalharemos com o filme Doméstica (2012), de Gabriel Mascaro, investigando as formas do filme se fazer junto aos modos de vida de jovens e empregadas domésticas em diversos lugares do país e, ao mesmo tempo, explicitar um engajamento com questões de classe, de exploração, de organização de trabalho. No caso, trata-se justamente de um trabalho doméstico em que questões afetivas estão fortemente conectadas aos modos mais explícitos do poder econômico operar.



Com um dispositivo que não poupa o próprio realizador, o filme cede a câmera para jovens que documentam suas empregadas domésticas reafirmando o lugar de poder desses jovens, mas, ao mesmo tempo, possibilitando uma presença do filme nas filigranas de uma relação entre patrões e empregados que explicita múltiplas formas de burlar e reforçar as estruturas sociais.



Interesse-nos nessa comunicação uma análise desta obra uma vez que ela nos coloca novas questões quando não desejamos separar a política como invenção de mundo e como intervenção nas formas de certos poderes aplacarem as formas de vida.

Bibliografia

BRASIL, André. Modulação/montagem: ensaio sobre biopolítica e experiência estética. Tese de doutorado em Comunicação – UFRJ, CFCH/ECO, 2008.



CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Cultura com Aspas. São Paulo: CosacNaify, 2010.



DELEUZE, G. & GUATTARI, F. , Mille Plateaux. Paris: Les Éditions de Minuit, 1980.



FAUSTO, Carlos. No registro da cultura:
o cheiro dos brancos e o cinema dos índios In: Vincent Carelli; E. Ignacio de Carvalho; A. de Carvalho. (Org.). Vídeo nas Aldeias: 25 anos. 1ed. Olinda: Vídeo nas Aldeias, 2011, v. 1



GUIMARÃES, César. Vidas ordinárias, afetos comuns: o espaço urbano e seus personagens no documentário in. I. GOMES, R. Cordeiro (org). Espécies de espaço. Territorialidades, literatura, mídia. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2008.



LATOUR, Bruno. Redes que a razão desconhece: laboratórios, bibliotecas, coleções. In: PARENTE, A. (org.) Tramas da rede. Porto Alegre: Sulina, 2004.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: Estética e Política. São Paulo: Editora 34, 2005.