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  Título
O GESTO E OS VESTIGIOS DA TOMADA de um cortejo fúnebre no Brasil de 68
Autor
Patricia Furtado Mendes Machado
Coautor
Thais Blank
Resumo Expandido
Março de 1968, Rio de Janeiro. Dois cinegrafistas solitários pegam suas câmeras e se dirigem para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Desde o dia anterior, milhares de pessoas estão reunidas para velar o corpo do estudante Edson Luis, assassinado pela polícia em um confronto no restaurante universitário Calabouço, no centro da cidade. De lugares diferentes e sem saber um da presença do outro, os cinegrafistas José Carlos Avellar e Eduardo Escorel filmam o cortejo até o cemitério em Botafogo.

Três décadas mais tarde, Escorel publica um artigo onde afirma desconhecer o destino das imagens produzidas por ele no cortejo fúnebre. Em uma fala melancólica, o documentarista lamenta o desaparecimento desses registros, que entende como um sintoma da precariedade com que é tratada a memória audiovisual brasileira: “a água, o ar, a terra e o fogo conspiram contra a preservação dos registros audiovisuais sonoros (...), o que resta são apenas tênues vestígios do passado, cuja sobrevivência, muitas vezes quase miraculosa, não temos como explicar” (2003, p.45). No entanto, apenas seis depois da publicação, os rolos de película de Escorel seriam finalmente encontrados na Cinemateca do MAM enrolados e colados às bobinas de Avellar, também consideradas perdidas.

Como foi possível que essas imagens fossem dadas como desaparecidas por quarenta anos? O que fez com que esses rolos de película fossem agrupados e classificados de forma genérica sem identificação dos autores? Que percurso eles traçaram durante essas décadas? Essas são algumas das perguntas que impulsionam a pesquisa apresentada, que se propõe a retraçar o caminho percorrido pelas imagens do momento da tomada até a reaparição e correta identificação em 2009.

Estudando a migração das imagens visamos compreender os usos, os olhares e os diferentes significados atribuídos a elas ao longo do tempo. Como por exemplo, a retomada de planos desses materiais pelo cineasta Chris Marker em três filmes, “On vous parle du Brésil: torture” (1969), "On vous parle du Brésil: Carlos Marighela"” (1969) e “O fundo do ar é vermelho” (1977), sem que nenhum dos dois cinegrafistas tivesse conhecimento. Contrariando a fala de Escorel, acreditamos que a sobrevivência das imagens não é apenas da ordem dos “milagres”, os caminhos tortuosos percorridos por elas revelam os embates políticos, as tensões e as zonas de luz e sombra de um tempo histórico.

Nessa comunicação, propomos que antes de entrarmos em uma análise aprofundada do emprego das imagens de Escorel e Avellar nos filmes de Marker, façamos um recuo ao momento da tomada, considerando esses registros como arquivo-futuro, como define a historiadora Sylvie Lindeperg. Em seu trabalho, Lindeperg destaca a importância de levar em conta as condições da tomada quando entramos em contato com um arquivo. Para a autora, são essas especificidades do momento da filmagem que tornariam a imagem preciosa, que nos convidariam a olhá-las novamente e ler nelas traços de resistência a uma política da invisibilidade: “Na imagem, o registro do acontecimento pode preceder a compreensão e ali pode haver elementos não escolhidos que permanecem esperando para que sejam desvelados e interpretados” (2008, p.12).

Para reconstruir os caminhos percorridos pelas imagens do cortejo fúnebre de Edson Luís e as diferentes camadas de significados que perderam ou ganharam ao longo dessa trajetória, acreditamos ser necessário compreender o gesto do cinegrafistas e o momento da tomada. Ao escrever sobre as imagens produzidas pelos países Aliados na abertura dos campos de concentração, Georges Didi-Huberman afirma que para que elas façam sentido hoje é preciso reconstruir a sua legibilidade, o que só pode ser feito se adotarmos a dupla tarefa de tornar essas imagens visíveis, tornando visível a sua condição de produção (2006, pp.1011-1049). Tarefa que assumimos como ponto de partida da pesquisa entendendo que tais condições de produção permanecem como sobrevivências nas imagens.

Bibliografia

ESCOREL, Eduardo. Vestígios do passado. CPDOC 30 anos / Textos de Célia Camargo... [et al]. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas/CPDOC, 2003

FARGE, Arlette. Qu’est-ce que qu’un événement?, Terrain n38, Éditions du Patriomine, mars 2002.

LAYERLE, Sébastien. Cameras em lutte em Mai 68 « Par ailleurs le cinéma est une arme... ». Éd Nouveau Monde. Paris: 2008.

LEANDRO, Anita. O tremor das imagens: Notas sobre cinema militante. Devires, Belo Horizonte, V. 7, N. 2, P. 98-117, JUL/DEZ 2010

LINDEPERG, Sylvie & COMOLLI, Jean-Louis. Images d’Archive: l’emboîtement des regards (entretien). In: Images Documentaires. 63 (2008)



________________. . Nuit et Brouillard- un film dan l´histoire. Odile Jacob, Janvier 2007.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Images Malgré Tout. Paris: Minuit, 2003.



_____________________. Ouvrir les camps, fermer les yeux. Editions de l'E.H.E.S.S. | Annales. Histoire, Sciences Sociales, 2006/5 pp. 1011-1049.