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  Título
Filmes iranianos e gêneros ocidentais: equívocos e estereótipos
Autor
Ferdinando Martins
Coautor
Daniel Marcolino Claudino de Sousa
Resumo Expandido
A primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ocorreu em 1977 sem a exibição de filmes iranianos. O primeiro filme vindo do Irã só seria exibido na quinta edição, em 1981, com uma única produção, Em defesa do povo, de Rafigh Pooya. Esse tímido começo não indicaria a forte presença nos anos seguintes, chegando a 28 produções na 28ª edição, em 2004, e um total de 157 produções exibidas em suas 35 primeiras edições (1977-2011).



As sinopses enfatizam um Irã rural e terno, com pessoas dóceis, inofensivas e que vivem um tempo já inexistente nas grandes cidades do Ocidente; estas, sim, para o bem ou para o mal, desenvolvidas, modernas. Em parte isso se deve a Abbas Kiarostami, que estabeleceu um padrão pelo qual o cinema iraniano ganhou notoriedade no circuito dos festivais. Onde Fica a Casa do meu amigo?, E a vida continua, Através das Oliveiras e Gosto de Cereja são filmes que se passam predominamente em zonas rurais, e cujos atores não haviam atuado anteriormente. Por isso a recorrente aproximação que se faz desse cinema com o Neorrealismo italiano.



Vincular o cinema de Kiarostami ao Neorrealismo italiano é uma das muitas tentativas de classificar o cinema iraniano em gêneros ocidentais. E a vida continua, por exemplo, é classificado como “road-movie”. A Jumenta, de Ali Jekan, é considerado um “semi-documentário”. Na sinopse, afirma-se que se trata de “uma produção iraniana recebida como um esforço de criar um cinema com as características culturais do país”. Deixando de lado a falta de sentido da frase “criar um cinema com as características culturais do país”, o autor da sinopse desconsidera a longa história do cinema iraniano, cujas primeiras produções são muito anteriores às brasileiras. Se for considerar um cinema que valoriza características locais, cabe lembrar que era essa a diretriz do Novo Cinema Iraniano, que, para muitos, tem como seu filme-fundador A Vaca, de 1969, 16 anos antes de A Jumenta.



A sonegação de informação e o embaralhamento dos registros real/ficcional, característicos de determinadas produções do cinema iraniano, não são compreendidos e corroboram com a ideia de que há um registro documental. Close up é também considerado um “semi-documentário” na sinopse. Na de Através das Oliveiras, ignora-se que se trata de um exercício de metalinguagem, mas é completamente ficcional.



Não perceber escolhas estéticas e considerá-las como “documentais” toma o ficcional por real. Assim, O Espelho, de Jafar Panahi, desvendaria “para o espectador uma parte completamente desconhecida do Irã”. Ou seja, o autor da sinopse não compreendeu o espelhamento entre si das várias histórias do filme. O curta Lição de casa, de Abbas Kiarostami, é considerado “uma análise do sistema de ensino em seu país”, quando se sabe, na verdade, que se trata, antes de tudo, de um filme, não de uma investição sistemática do ensino.Dez é descrito como “um sensível retrato da feminilidade no Irã”, o que nos foi negado pelo próprio Kiarostami em entrevista realizada em Teerã, em julho de 2011.



Muitas produções são classificadas como “surrealistas” sem o ser. É o caso de Tempo de amor, de Makhmalbaf, e de O Ambulante, do mesmo diretor, em cuja sinopse está escrito: “O diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf fez um filme surrealista muito próximo ao neo-realismo italiano”. A frase é incoerente, pois surrealismo e neo-realismo italiano são estéticas que em muito se diferenciam.

Ressalte-se ainda a frequente comparação de diretores iranianos com ocidentais. Dessa forma, o diretor Amir Naderi é igualado a John Ford. O filme Era uma vez no cinema, de Moshen Makmalbaf, é descrito como “chapliniano”.



A conclusão aponta para os aspectos ideológicos envolvidos na classificação de filmes iranianos a partir de gêneros do cinema ocidental.

Bibliografia

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MELEIROS, Alessandra. O novo cinema iraniano: arte e intervenção social. São Paulo: Escrituras, 2006.

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