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  Título
O fazer documentário: expor, observar e interagir
Autor
Eduardo Tulio Baggio
Resumo Expandido
O documentarista, ao se colocar em sua prática, enfrenta o desafio da constituição de um discurso sobre o mundo, um discurso de asserções sobre a realidade. Para isso, deve fazer opções referentes à sua colocação diante desse mundo, em busca da narrativa e da linguagem que seu filme terá.

Existem inúmeras possibilidades nesse processo constitutivo, mas algumas matrizes tornaram-se essenciais na história do cinema documentário, em especial, as ideias que envolvem os conceitos de exposição, observação e interação. Tais conceitos já foram bastante explorados como organizadores de discursos fílmicos documentais, como por exemplo nas reflexões sobre os modos de representação do cinema documentário (NICHOLS, 2005).

Além de serem conceitos que auxiliam no entendimento das relações gerais dos filmes documentários com o mundo sobre o qual produzem asserções, esses três conceitos estão intensamente presentes na prática de realização documental, independentemente de o documentarista ter feito opções claras por um ou outro modo de representar. As ideias que fundamentam tais conceitos tratam de opções de caráter ético e estético, que balizam, em vários momentos da realização fílmica, as posturas do documentarista.

Portanto, um filme documentário pode assumir diversas formas e seguir por caminhos muito distintos, mas terá sempre, em um sentido ético-estético, opções por estratégias de abordagem que privilegiem a exposição, ou a observação, ou a interação. Isto ocorre em correspondência ao que Fernão Pessoa Ramos chamou de campos éticos do documentário (Ramos, 2005).

As estratégias tipicamente expositivas dão a entender que o processo de constituição de um discurso documental deve estabelecer claramente uma primazia do que o documentarista entende do mundo, usando o vetor da exposição como determinante nas opções do documentarista. Neste caso as opções se dão privilegiando um conhecimento estabelecido e sua transmissão.

O observar, utilizado como estratégia para constituição do discurso fílmico, prioriza o contato do realizador com o mundo, mantendo um distanciamento que busca oferecer parte das escolhas para o espectador, dividindo com este, em certa medida, a constituição do discurso. São opções marcadamente estabelecidas com o objetivo de minorar o conhecimento estabelecido e transferir, ao máximo, a “circunstância da tomada” (RAMOS, 2012).

A interação, como estratégia de constituição do discurso documental, suscita o diálogo entre o conhecimento estabelecido do documentarista e o que o mundo oferece nas circunstâncias de realização. Tem-se, desta forma, opções que buscam relacionar conhecimentos prévios com que se encontra disponível no âmbito da realização, explicitando um processo onde há constante interação.

Porém, tais estratégias mostram-se difusas e mescladas em muitos filmes documentários. É nessa fissura, na busca do entendimento das escolhas feitas em momentos específicos da realização, que está estruturada esta pesquisa. Isto porque as matrizes de abordagem não podem ser consideradas apenas de maneira lato, é preciso uma análise focada para que se tenha avanço na compreensão da realização documental.

Também não é possível nos atermos apenas às tipologias típicas no entendimento da constituição do discurso dos filmes, já que muitos recursos de linguagem podem ser utilizados de formas criativas diversas. Por exemplo, um texto em voz over nem sempre é uma característica expositiva, pode estar sugerindo uma interação.

A partir da experiência da realização do documentário Santa Tereza – filmado em um antigo leprosário na região metropolitana de Florianópolis –, apresento os conceitos de exposição, observação e interação, nas diversas etapas da realização fílmica, desde a pesquisa sobre o tema até opções específicas de edição.
Bibliografia

GAUTHIER, Guy. O documentário: um outro cinema. Campinas, SP : Papirus, 2011.

NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. São Paulo : Papirus, 2005.

PENAFRIA, Manuela. O Filme Documentário: história, identidade, tecnologia. Lisboa : Edições Cosmos, 1999.

__________________ (org.) Tradição e Reflexões: contributos para a teoria estética do documentário. Livros Labcom, 2011.

RAMOS, Fernão Pessoa. A cicatriz da tomada. In: RAMOS, Fernão Pessoa (org.) Teoria Contemporânea do Cinema (Volume II). São Paulo : Editora Senac, 2005.

_____________________ Mas Afinal... O que é mesmo documentário? São Paulo : Editora Senac São Paulo, 2008.

_____________________ A imagem-câmera. Campinas, SP : Papirus, 2012.

ROMAGUERA I RAMIÓ, Joaquim & THEVENET, Homero Alsina. Textos e manifiestos del cine. Madrid : Ediciones Catedra, 1998.

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. (org). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo : Summus, 2004.