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  Título
Mapeando o Apocalipse: O Simbolismo espacial nos filmes de zumbis
Autor
Paula Gomes
Resumo Expandido
O conceito de espaço narrativo é definido por Buchholz & Jahn como “um ambiente no qual os personagens contidos na história se movem e vivem (Buchholz & Jahn 2005, p.552). Este ambiente pode possuir uma significado simbólico atrelado a sua paisagem, quando permitem que sejam realizadas conexões simbólicas com territórios específicos de sua narrativa (Ryan, 2012). Ryan diz que estes espaços narrativos podem ser comparados a cosmologia de sociedades arcaicas, na qual o espaço é ontologicamente dividido entre o mundo profano, da vida cotidiana, e o mundo sagrado, habitado por seres sobrenaturais. Esta afirmação vem de encontro a analise do semiólogo Yuri Lotman que diz que uma narrativa se inicia quando um personagem ultrapassa a fronteira entre dois lugares que se opõem simbolicamente. (Lotman, 1970).A oposição simbólica dos espaços em narrativas não fantásticas pode ser organizada entre dicotomias como colonizadores e colonizados, entre a casa e o distante de casa, entre o conhecido e o desconhecido, etc. (Ryan, 2012) .

Um gênero narrativo amplamente marcado pela sua espacialidade é o gótico, e em sua analise sobre o espaço neste tipo de ficção, Manuel Aguirre o divide em duas zonas: o espaço do domínio da racionalidade, e o espaço do sublime,o numinous que transcende a razão humana, e a trama invariavelmente envolve o movimento de um lugar para o outro (“Aguirre, 2008, p.2-3). Os espaços numinous geralmente são locais que podem ser caracterizados como exóticos, estrangeiros, e bárbaros (Aguirre, 1990, p.92).Esta divisão simbólica do espaço está presente nas obras do primeiro ciclo de filmes de zumbi, como White Zombie (1932), e I Walked With a Zombie, (1943), cujas tramas, derivadas da literatura de viagem de antropólogos e exploradores nos séculos XVIII e XIX, foram ambientados em ilhas dos caribe. Estes espaços foram retratados como locais exóticos regidos pelas leis do sobrenatural, simbolizando as ansiedades coloniais do pais em relação ao seu domínio sobre o Haiti na época.

Já em 1968 o então cineasta amador George A. Romero inaugura um subgênero de filmes com a película Night of the Living Dead (1968) que retrata um zumbi retirado de sua herança caribenha,transferindo-o para o espaço doméstico. Os filmes então passam a ser ambientados em locais fechados, como uma casa de campo em Night of the Living Dead, e um shopping center em Dawn of the Dead (1978). Estes ambientes, que em um primeiro momento podiam ser considerados familiares, sofrem um transformação no decorrer das películas, transformando-se em um ambiente hostil, que pode ser associado ao conceito de Freud de Uneimlichkeint,um sentimento simultaneamente estranho e familiar, causado por um processo de repressão. Deste modo, Bishop diz que no primeiro filme de Romero, “a casa de fazenda sintetiza o conceito de Freud porque ela vacila continuamente entre os estados de familiar e não familiar, funcionando como um local que abriga traumas reprimidos da sociedade (Bishop, 2010).

Atualmente, entretanto, notamos outra mudança neste paradigma espacial, em filmes contemporâneos de zumbis,como 28 days later (Londres-UK, 2002) Juan de lós muertos (Havana-CUB 2011) Capital dos mortos (Brasília-BR 2008). Nesses filmes o espaço narrativo é composto por grandes metrópoles, que se encontram desativadas por uma catástrofe, em um cenário que segundo Jameson pode ser explicado como a realização de um desejo utópico em que “ o protagonista e um pequeno grupo de sobreviventes da catástrofe vão em busca de uma coletividade menor e mais habitável após o final da modernidade e do capitalismo””(Jameson, 2005, p.199). Este desejo utópico de estruturação de uma nova sociedade após o fim do capitalismo também é apontado por Žižek, ao defender que a sociedade almeja a catástrofe, pois “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que uma alternativa a ordem sociopolítica existente ( Žižek,1994, p.1)
Bibliografia

AGUIRRE, Manuel. Closed Space: Horror Literature and Western Symbolism.

Manchester: Manchester University Press, 1990.



AGUIRRE, Manuel. Geometries of Terror: Numinous Spaces in Gothic, Horror and

Science Fiction. in Gothic Studies. 10.2.2008.



BISHOP, Kyle William American Zombie Gothic: the rise and fall (and rise) of the walking dead in popular culture North Carolina: McFarland & Company Inc ,2010.



BUCHHOLZ Sabine & JAHN Manfred. Space in Narrative. in Routledge Encyclopedia of Narrative Theory Usa e Canada: Routledge, 2005



FREUD, Sigmund The 'Uncanny London: Penguin, 1990.



JAMESON, Fredric. Archaeologies of the future. London/New York:Verso, 2005



LOTMAN, Yuri. The Structure of the Artistic Text. University of Michigan Press, 1977.



RYAN Marie-Laure. Space. in The living handbook of narratoloy. Disponivel em: http://wikis.sub.uni-hamburg.de/lhn/index.php/Space



ŽIŽEK, Slavoj. The Spectre of ideology. In Mapping ideology, London: Verso, 1994.