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  Título
Modernização da telenovela brasileira: o duplo pacto do melodrama realista
Autor
Mariane Harumi Murakami
Resumo Expandido
Tornou-se clássica nos estudos de televisão a divisão histórica do processo de modernização do gênero em dois momentos: primeiro, a era melodramática dos seus anos iniciais, marcada pelo exagero, pelo maniqueísmo, por personagens planos e pela apresentação de mundos exóticos e fantasiosos. Mais tarde, Beto Rockfeller inaugura a era realista das telenovelas, introduzindo elementos modernos que caracterizam o gênero até hoje, com novas atitudes morais e convenções estéticas (XAVIER, 2003). Essa divisão foi proposta nos estudos de TV numa tentativa de distinguir a produção realizada por seus colegas latino-americanos, garantindo assim uma reserva de mercado (HAMBURGER, 2011). Hoje, nos estudos do gênero, a telenovela é considerada um produto cultural de expressão própria, sem equivalente e configurando-se como uma narrativa sobre a nação (LOPES, 2002).

Entretanto, é equivocado dizer que houve, nessa modernização, um abandono da estrutura melodramática a favor de uma proposta realista, visto que “a produção brasileira atual continua a observar as regras do gênero e pauta-se pela mesma presença de um coeficiente de realismo na representação que caracterizou o cinema hollywoodiano dos anos 50” (XAVIER,2003,p.96). Na realidade, propomos que o fator distintivo da telenovela brasileira é exatamente a incorporação de elementos realistas ao melodrama, estabelecendo um jogo narrativo em que o principal objetivo é a total mobilização do espectador na trama, numa lógica dupla: por um lado, a produção de processos de identificação melodramática (ANG,1985) e de engajamento emocional, fazendo com que o espectador mergulhe no universo diegético da trama; e, por outro, a produção de efeitos de real (BARTHES,2004) – estratégias discursivas que tentam conferir um referente empírico à narrativa, uma ilusão de que o que o espectador assiste à realidade histórica que vive (AUMONT,1995), apontando para o universo extradiegético da narrativa.

Sendo assim, o conceito de melodrama trabalhado aqui ultrapassa a noção de gênero e considera-o como um modo pervasivo (WILLIAMS,2012) ou como uma forma de imaginação (BROOKS,1995) produtiva para canalizar e encenar as necessidades de moralização (BALTAR,2007) e que se institui nos mais diversos gêneros e produtos midiáticos. No processo de modernização da telenovela, o melodrama continua a cumprir papel primordial no processo de engajamento do espectador na narrativa, especialmente no que diz respeito a uma de suas principais características: a habilidade de colocar em pauta questões sociais que eram previamente ignoradas. Afinal, o melodrama renova-se na telenovela ao adaptar as mais recentes problemáticas sociais sob essa percepção de mundo melodramática; enfim, ele não se opõe àquilo que reconhecemos como realismo: pelo contrário, o melodrama em sua forma moderna não pode prescindir do realismo, justamente para gerar engajamento do espectador nesse duplo jogo narrativo. Assim, no pacto ficcional (ECO,2004) estabelecido, são colocadas cláusulas de um duplo contrato – o factual, de um lado, e o ficcional, por outro – produzindo forças ao mesmo tempo centrípetas (por exemplo, quando a trama faz inserções realistas/documentais, apontando para uma realidade exterior) e centrífugas (quando reforçam a imersão no mundo ficcional).

Isto posto, o objetivo deste trabalho é realizar uma análise de tramas brasileiras contemporâneas – Cheias de Charme, Avenida Brasil, Salve Jorge, Lado a lado -, discutindo o jogo estabelecido entre realismo e melodrama no processo de modernização do gênero, considerando a narrativa (BORDWELL,1985) como o processo através do qual a trama (modo de representação da história) e o estilo (materialização do filme pela técnica) interagem, dando pistas e canalizando a construção da fábula (história representada) pelo espectador. Cremos que tal perspectiva possibilitará a análise do gênero considerando-o em sua totalidade discursiva (relações entre narrativa, técnica e contexto).
Bibliografia

ANG,I. Watching Dallas. London: Methuen,1985.

AUMONT, J. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

BALTAR, M. Realidade lacrimosa - diálogos entre o universo do documentário e a imaginação melodramática. Tese de Doutorado. Niterói, PPGCOM-UFF, 2007.

BARTHES, R. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 2004.

BORDWELL, D. Narration in the fiction film. Madison: The University of Wisconsin, 1985.

BROOKS, P. The Melodramatic Imagination..Yale: Yale University Press, 1995.

ECO, U. Seis passeios pelos bosques da ficção. 8. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

HAMBURGER, E. Telenovelas e interpretações do Brasil. Lua Nova, v. 82, p. 61-86, 2011.

LOPES,M.A telenovela brasileira: uma narrativa sobre a nação. Revista Comunicação &

Educação, 25. São Paulo, jan/abr 2003.

XAVIER, I. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

WILLIAMS,L.Mega-Melodrama! Vertical and Horizontal Suspensions of the “Classical”. Modern Drama. V.55, N. 4, Winter 2012, pp. 523-543.