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  Título
Apuntes para una biografía imaginaria: transitoriedade e resistência
Autor
Maria Augusta Vilalba Nunes
Resumo Expandido
O historiador da arte Aby Warburg durante seus estudos sobre o Renascimento nota a recorrência das Ninfa nas obras de diversos artistas desse período, a escola que apesar de resgatar valores das artes clássicas, que era fortemente influênciada pelo culto à divindades pagãs, se desenvolveu sob a autoridade do cristianismo, que condenava o vínculo com as crenças antigas. Assim, Warburg vê na figura da Ninfa a resistência de uma vitalidade pagã que vinha justamente tentando ser apagada pela civilização cristã. As Ninfas são o começo de uma investigação que Warburg levará a cabo por toda a vida: a de encontrar imagens recorrentes e ver nelas as sombras de um passado que resiste ao tempo. A teoria de Warburg influenciou diversos pensadores da arte e da imagem, dentre eles Walter Benjamin, cujo conceito de imagem dialética se aproxima em alguns pontos da de Pathosformel de Warburg. Para ambos as imagens estão em permanente movimento, pois elas resistem através dos tempos e durante essa passagem elas se transformam, desse modo, a cada salto temporal dado pela imagem elas retornam adquirindo novos sentidos e novos significados. Tanto Benjamin quanto Warburg percebiam o sentido político dessa passagem, pois a imagem para eles seria essêncial para que se pudesse entender a nossa própria história.

É seguindo os passos de Warburg e Benjamin que traço uma análise do filme Apuntes para una biografía imaginaria de Edgardo Cozarinsky, filme ensaio, em que ele constrói um espécie de mosáico que retrata sua história pessoal e sua história como cineasta, mas ele também se apossa das histórias de outrem e forja biografias alheias. Dentro dessas histórias suas ou não, Cozarinsky faz uma reflexão sobre a morte e a sobrevivência de seu corpo e do corpo do outro enquanto imagem e da própria imagem enquanto imagem, pois além das imagens criadas para o filme, que são poucas, ele reconfigura imagens de seus filmes anteriores, tanto as que ele produziu quanto as que ele resgatou - Cozarinsky em diversos de seus filmes trabalha com imagens de arquivo, e em várias passagens de Apuntes ele usa esse procedimento - assim, o filme funciona como uma espécie de diário e uma homenagem a sobrevivência, ao resgate e a resignificação, termos que acompanharam e acompanham a trajetória de Cozarinsky como cineasta e como escritor.

Em Apuntes percebo que a imagem enquanto sobrevivência e resistência se dá tanto pelo uso das imagens de arquivo, quanto pela forma como Cozarinsky retrata a si e aos personagens que ele elege para imprimir em suas imagens. Ele, por exemplo, filma os rostos de alguns atores durante tempo suficiente para que possamos observar que a cada instante que passa as feições mudas dessas figuras humanas vão mudando sutilmente, essas mudanças me fazem perceber nessas figuras a própria condição de transitoriedade da imagem, uma mudança que é transformação e permanência ao mesmo tempo.

Em Apuntes a cada transição de cena podemos perceber imagens que tentam sobreviver, resistir, e não apenas resistir ao tempo e no tempo, mas resistir enquanto potência política, pois elas, usando o termo de Didi-Huberman, tomam posição, enfrentam e nos fazem enfrentar a realidade, mas também os sonhos, o passado e os fantasmas do mundo. Cozarinsky está sempre nos fazendo lembrar que as imagens sempre retornarão para nos assombrar, para não nos deixar esquecer, para nos fazer sonhar, para nos aproximar de realidades distantes e de nossa própria realidade.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Obras escolhidas vol.2. São Paulo: Brasiliense, 1994.



BENJAMIN, Walter. Origem do Drama Trágico Alemão. Edição, apresentação e tradução de João Barrento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005.



BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2006



BERGSON, Henri. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2006.



BURUCÚA, José Emilio. História, arte, cultura: de Aby Warburg a Carlo Ginzburg. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2007.



DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São paulo: Ed. 34, 1998.



DIDI-HUBERMAN. Ante el tiempo. Buenos Aires: Adriano Hidalgo, 2008.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Cuando las imágenes toman posición. El ojo de la historia 1. Tradução do Francês para o Espanhol por Inés Bértolo. Madrid: Antonio Machado Libros, 2008a.

DIDI-HUBERMAN. La Imagen superviviente. Madrid: Abada Editores, 2009.