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  Título
O olhar de Paulo Gil Soares na Caravana Farkas
Autor
Joyce Felipe Cury
Resumo Expandido
A Caravana Farkas foi uma experiência do cinema documentário brasileiro realizada entre 1964 e 1981, em que cineastas ainda desconhecidos, financiados pelo fotógrafo e produtor Thomaz Farkas, fizeram viagens pelo Brasil a fim de retratar como vivia o povo brasileiro. Era uma iniciativa, até então inédita, de fazer documentários com uma “câmera na mão” e posteriormente exibi-los na televisão e em escolas como material de apoio em sala de aula, o que não aconteceu. Os filmes tornaram-se um espaço de experimentação e liberdade criativa para profissionais do cinema.

Um deles foi o diretor baiano Paulo Gil Soares, parceiro de Glauber Rocha no Cinema Novo, com quem trabalhou em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Paulo Gil transitou entre a ficção e o documentário, levando depois sua experiência para a televisão, idealizando o programa Globo Repórter, até hoje no ar pela Rede Globo. Paulo Gil dirigiu oito documentários na Caravana, sendo o objetivo deste trabalho encontrar aproximações entre sete deles, feitos entre 1969 e 1971, que integram a 2ª fase do projeto, intitulada A Condição Brasileira. Pretendemos responder: como estes filmes retratam a cultura regional?

Em termos de temática, há dois eixos nas produções, feitas nos estados da Bahia e da Paraíba. Um se refere às relações de trabalho do homem nordestino no meio rural: A morte do boi (1969), Jaramataia (1970), A mão do homem (1970) e O homem de couro (1970) sobre o ciclo do gado, do abatedouro ao artesanato; e Erva Bruxa (1970) sobre o cultivo do fumo. O outro trata de atividades deste homem quando não está trabalhando, seja um espetáculo de derrubada de bois ou sua crença religiosa, respectivamente: Vaquejada (1970) e Frei Damião: trombeta dos aflitos, martelo dos hereges (1970). São filmes que se afinam com a proposta do Cinema Novo brasileiro, de dar espaço para o povo mostrar sua fala e gestos, inseridos no que Fernão Ramos (2008) denominou “documentário novo brasileiro”.

Inspiram-se no modelo direto de documentário praticado por americanos e franceses na década de 1960, ao utilizarem as novas tecnologias da época, captando sons com gravadores portáteis e imagens com câmeras pequenas e leves, dando mobilidade ao cineasta. Contudo, carregam um estilo próprio, preservando traços da escola inglesa de Grierson, dos anos 1920, sobretudo por seu caráter educativo. Há, desta forma, uma mistura entre os modos de documentário expositivo, observativo e participativo, nomenclatura proposta por Bill Nichols (2010).

Ao mesmo tempo em que ouvimos uma voz over interpretativa e didática que expõe o argumento (em A morte do boi, por exemplo), temos um caráter observacional com imagens feitas no “corpo-a-corpo” com as situações (tomadas de trabalhadores em Erva Bruxa são um exemplo), e a participação do “sujeito-da-câmera” em entrevistas (Frei Damião é inteiro composto pela entrevista do frade ao cineasta).

Em relação aos personagens, há situações ensaiadas para a câmera, nas quais o personagem realiza uma performance. “[...] ‘Pessoas’ da vida real que representam, ‘performam’, para as câmeras do documentário, os papéis sociais de si, sua auto-imagem” (BALTAR, 2007, p.32). É o caso da apresentação do vaqueiro Zé Galego em O homem de couro.

Há uma preponderância do que Bernardet (2009) chamou de “voz do saber”, representada nos filmes pela narração em voz over, sobre a “voz da experiência”, quando é o sujeito retratado quem fala. O “sujeito-da-câmera” tem informações que os próprios personagens desconhecem, e os entrevista para confirmar seu argumento.

Os documentários retratam o subdesenvolvimento na fala do narrador, nas imagens e nos depoimentos. Compreendemos que os filmes dizem muito sobre o Brasil da época, por meio das histórias dos personagens retratados: um povo subdesenvolvido, visto como alienado e vítima de sua condição precária. Condição esta justificada por situações externas a ele, as quais não consegue mudar, obedecendo a um ciclo imutável que rege sua vida.

Bibliografia

BALTAR, Mariana. Realidade Lacrimosa: diálogos entre o universo do documentário e a imaginação melodramática. Tese de Doutorado – Departamento de Comunicação. Universidade Federal Fluminense, 2007.



BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Cia das Letras, 2009.



FARKAS, Thomaz. Cinema documentário: um método de trabalho. Tese de Doutorado – Departamento de Jornalismo e Editoração. Escola de Comunicação e Artes. Universidade de São Paulo, 1972.



GOMES, Paulo Emilio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1996.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas-SP: Papirus, 2010.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.



RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... O que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.



SOBRINHO, Gilberto Alexandre. A Caravana Farkas e o moderno documentário brasileiro: introdução aos contextos e conceitos dos filmes. São Paulo: Annablume, 2008.