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  Título
Multidão e arte: o financiamento coletivo de obras audiovisuais
Autor
Vanessa Amália Dalpizol Valiati
Resumo Expandido
As novas tecnologias e a interação mediada por computador (Primo, 2011) alteraram significativamente a produção, circulação e o consumo de obras audiovisuais. A participação e o engajamento estimulados pelas redes na internet nos levam a observar um fenômeno recente no Brasil: o uso dos sites de crowdfunding como forma de financiamento aos mais variados projetos e expressões artísticas. Nesse caso, as redes de colaboração servem para angariar o apoio financeiro na execução de projetos de baixo orçamento.

Esta participação do espectador não é uma iniciativa nova. A arte enquanto obra interativa, de acordo com Machado (2011), ganha autonomia partir do anos 60, em alguns casos até convertendo o receptor em cocriador da obra. O autor cita, dentre vários exemplos, os parangolés de Hélio Oiticica e os bichos de Ligia Clarke como obras que estimulam a intervenção ativa do espectador, abolindo as fronteiras entre o produtor e o consumidor. No caso do crowdfunding, esse entrelaçamento entre o consumidor e produtor se dá por meio de pequenos investimentos online, onde cada microinvestidor pode ter a sensação de que ajudou a realizar parte daquela obra.

O objetivo destas plataformas é que várias pessoas contribuam com pequenas quantias para viabilizar uma ideia. Na maioria dos casos, funciona da seguinte maneira: o interessado define o projeto, estipula o valor, as contrapartidas (recompensas aos doadores), o prazo limite e cadastra no site. Cada projeto também deve contar com um vídeo de apresentação. Caso o valor não seja atingido no prazo estipulado, o projeto não é financiado e o dinheiro retorna aos colaboradores. Se atingir ou ultrapassar a meta, o dinheiro é repassado para o proponente e o projeto realizado.

Com base em uma análise preliminar do site de crowdfunding Catarse, o maior dessa categoria no Brasil, pode-se perceber que uma grande parte dos filmes financiados faz parte da categoria Cinema e Vídeo, e, dois dos campeões de arrecadação enquadram-se no gênero documentário. A partir disso, este estudo pretende analisar o documentário Belo Monte - Anúncio de uma Guerra, sobre a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que arrecadou R$ 140.010 em dois meses. O filme foi produzido a partir de três expedições à região do Rio Xingu, Altamira e arredores. Os produtores pediram ajuda através do site de crowdfunding Catarse para a edição e finalização do material. Com o objetivo atingido, o filme foi finalizado e estreou às vésperas da realização da Rio +20, conferência internacional para discutir as causas ambientais. Outra iniciativa que pode ilustrar a atual conjuntura é o documentário chamado Domínio Público. O filme está sendo realizado há cerca de um ano e pretende investigar o destino do dinheiro investido na Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas do RJ em 2016. O valor solicitado por meio de crowdfunding foi de R$ 90.900 e o arrecadado atingiu R$ 106.221.

Assim, este artigo, com base em dados qualitativos e quantitativos, pretende abordar questões relevantes (tipologias de filmes financiados, categorias, estratégias) bem como as motivações envolvidas e sua aplicação como possibilidade de financiamento para a viabilização de projetos de baixo orçamento do meio audiovisual nacional.

Bibliografia

HOWE, J. O Poder das Multidões: por que a força da coletividade está modificando o rumo dos negócios.

MACHADO, A. Pré-cinemas e Pós-Cinemas. Campinas: Papirus, 2011.

PRIMO, A. Interação Mediada por Computador. Porto Alegre: Sulina, 2011

RAMOS, F.P. Mas afinal…o que é mesmo documentário?. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2008.

SHIRKY, C. A Cultura da Participação. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.