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  Título
A reapropriação de gêneros por Lars von Trier - o caso de Antichrist
Autor
Patrícia Kruger
Resumo Expandido
Em matéria de refuncionalização do meio de produção cultural, poucas pessoas foram tão longe quanto Lars von Trier. Um dos diretores mais notáveis da atualidade, seja pelas apropriações de gêneros, seja pelo incômodo causado como um provocateur, seja pelas inovações estilísticas e temáticas, o fato é que o diretor tem constantemente investigado, destruído e reconstruído a tradição cinematográfica. Sempre de uma maneira muito inventiva, estranhada, perturbadora, Trier não deixa de acoplar, contudo, o melodrama, no seu sentido mais tradicional, à grande parte de seus projetos, mostrando os limites da forma e sua relação íntima com uma moral cega para as armadilhas ideológicas que sua obra propõe.

Assim, do melodrama aos filmes de horror, passando pelos musicais, o topos da vingança, e mesmo a comédia, todos os carros-chefes de Hollywood têm sido revisitado pelo dinamarquês, que, desta forma, expõe suas falácias e suas relações mercadológicas, reinterpretando as relações sociais, econômicas e políticas dos mesmo assuntos de sempre, mas agora em chave distanciada.

Dito isso, gostaríamos de frisar nosso interesse em apontar a estrutura distanciadora que norteia grande parte de sua obra, e como esta estrutura relaciona-se com o trabalho de reapropriação de gêneros tão caro ao diretor. Podemos citar, por exemplo, o filme Breaking the Waves, de 1996, e como o uso do melodrama se faz aqui de uma forma crítica, estando tal gênero a serviço das problematizações que o autor gera no âmbito da representação do feminino. Da mesma forma, podemos nos indagar a respeito de filmes como Melancholia (2011) ou Dancer in the Dark (1999), e como é feito, também nestas obras, um estratégico uso crítico e político de gêneros consagrados de Hollywood, sendo estes empregados na produção de significados mais profundos, intricados nas relações entre forma e conteúdo.

Neste caminho, propomo-nos a aprofundar tal investigação concentrando-nos em Antichrist, de 2009. Isto porque acreditamos que tal filme seja também elaborado de uma maneira que permita o distanciamento e uma compreensão crítica do que o filme apresenta, em consonância ao método político-estético de Bertolt Brecht, e não como um filme cujo modelo basal seja o drama e sua oferta de um fiel recorte da realidade. O gênero de horror, acompanhado de sua representação do feminino, nesse sentido, seria utilizado como elemento a ser questionado, e não como forma total do filme.

Desta forma, Trier, ao explorar o gênero do filme de horror, tão íntimo de atitudes misóginas não problematizadas, submete-o à chave distanciada pela qual o filme deve ser compreendido, dando-lhe voz para tratar de relações de gênero (gender) numa esfera questionadora e, talvez por isso, mais perturbadora. Aproveita o próprio espaço do suspense, típico do gênero, para reconfigurá-lo numa chave estranhada: em diversos momentos do filme, como quando as personagens ouvem sons no telhado, há uma expectativa por uma ação surpreendente, expectativa da personagem masculina e da plateia, que é logo revertida. O próprio meio cinematográfico é, consequentemente, colocado em xeque por não levar adiante sua “lógica natural”, forçando-nos a desconfiar do que é mostrado e indagar a causalidade desta forma de exposição.

Bibliografia

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BAINBRIDGE, Caroline. The cinema of Lars von Trier: Authenticity and artifice. Londres: Wallflower Press, 2007

JAMESON, Fredric. O método Brecht. Trad. Maria S. Betti, revisão técnica Iná Camargo Costa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

LANGFORD, Barry. Film Genre: Hollywood and Beyond. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2005.

MULVEY, Laura. “Prazer Visual e cinema narrativo.” In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.

SZONDI, Peter. Teoria do drama moderno (1880-1950). Trad. Luís Sérgio Repa. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.

XAVIER, Ismael. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 1984